Page 9 Volume 20 - N2 - 2012
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Dor (2012) 20
receptor da bradicinina pode ainda induzir a
activação da fosfolipase C (PLC) e da fosfoli-
pase A2 (PLA2), induzindo a produção de de-
rivados do ácido araquidónico, capazes de eles
próprios activarem TRPV1 54,63,64 . Outro mecanis- TRP V1b
mo de sensibilização do TRPV1 resulta da sua TRP V1 TRP V1
interacção com fosfoinositidos. Por exemplo, © Permanyer Portugal 2012
sabe-se que a molécula fosfatidilinositol-4,5-bi-
fosfato (PtdIns(4,5)P2) sensibiliza o TRPV1 na Ca 2+ 2+ Ca 2+
presença de elevada concentração de agonis- Ca 2+ Ca 2+ Ca 2+ Ca
ta 65,66 e inibe o receptor a baixas concentrações Ca 2+ Ca 2+ Ca 2+ Ca 2+
desse agonista 67,68 . Apesar da análise funcional
obtida em porções de neurónios obtidos por dis- Normal Inflamado
sociação de gânglios raquidianos indicar que
PtdIns(4,5)P2 sensibiliza o TRPV1 , os mecanis- Figura 1. Modelo esquemático de um possível
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mos que levam ao efeito antagónico são ainda mecanismo de modulação do TRPV1 pela sua variante
de splicing TRPV1b, durante a inflamação visceral.
desconhecidos . Outro mecanismo de sensibi-
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lização do TRPV1 é a sua interacção directa com
moléculas de adenosina trifosfato (ATP). O ATP
possui um domínio de ligação no domínio de an- única descrita como sendo expressa em tecido
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quirina presente na porção N-terminal do TRPV1 . humano, tem um efeito negativo sobre o TRPV1 .
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Ao ligar-se ao TRPV1, sensibiliza o receptor a Ou seja, quando co-expressa com o TRPV1, o
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estímulos subsequentes . Outro aspecto a ter receptor torna-se insensível a vanilóides, a pro-
em consideração é o facto do número de neu- tões e ao calor . Durante a inflamação vesical
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rónios que exprimem o TRPV1 aumentar em mo- é possível observar um decréscimo da expres-
delos animais de cistite (Avelino, et al., dados não são do ARNm do TRPV1b. Uma possível conse-
publicados). Mais ainda, estudos recentes mos- quência desta redução irá ser um aumento do
traram um aumento da expressão de TRPV1 nas número de homotetrâmeros de TRPV1, e conse-
bexigas de doentes que sofrem de cistite inters- quente aumento da actividade do recep-
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ticial , urgência e bexiga hiperactiva 74,75 . Os tor 79,81,82,87 . Ou seja, o decréscimo dos níveis de
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factores que levam a este aumento não estão ARNm do TRPV1b pode representar um meca-
bem estabelecidos. No entanto, há que ter em nismo de sensibilização do TRPV1 como se
consideração que durante a inflamação ocorre pode observar na figura 1.
um aumento dos níveis do factor de crescimento Outro mecanismo que pode levar a um au-
nervoso (NGF) 76,77 , e que esta molécula é res- mento da actividade do TRPV1 será o aumento
ponsável pelo aumento da tradução do TRPV1 . do seu transporte para a membrana plasmática
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No entanto, se o aumento dos níveis proteicos neuronal. É sabido que a activação da PKC pro-
de TRPV1 representa um aumento dos níveis de move o rápido transporte vesicular do TRPV1 para Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação.
tradução é um assunto controverso. São poucos a membrana, num mecanismo que é dependen-
os estudos que analisam os níveis de ARN de te das proteínas SNARE . Também a fosforilação
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polaridade positiva (ARNm) do TRPV1 durante a pela PKA é crucial para o transporte do TRPV1
inflamação visceral. Charrua, et al. observaram para a membrana, uma vez que modificações
que os níveis de ARNm do TRPV1 nos gânglios dos locais de fosforilação da PKA no TRPV1
raquidianos não se alteram durante a inflamação suprimem o transporte deste receptor para a
crónica da bexiga . No entanto, a expressão do membrana citoplasmática . Receptores como o
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ARNm do receptor nas células uroteliais aumen- TRK A e o receptor da insulina também promo-
ta durante o processo inflamatório . O facto da vem o transporte do TRPV1 para a membrana
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expressão do ARNm do TRPV1 urotelial não ser citoplasmática, por mecanismos dependentes
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influenciada pela presença de NGF poderá in- da fosfoinositídeo 3-cinase (PI3K) 69,90 .
dicar que a tradução desta proteína difere com A resposta à terceira questão há muito que
o tipo celular. Outro mecanismo de modulação do tem sido endereçada. Moléculas vanilóides como
TRPV1 é a interacção do receptor com as suas a capsaicina e a resiniferatoxina têm sido usadas
próprias variantes de splicing 81-83 . Existem três como agentes dessensibilizantes das fibras C, com
variantes de splicing descritas para o TRPV1. Elas o objectivo de melhorar a dor e a frequência
são a VR.5’ sv, a TRPV1β e a TRPV1b. A VR.5’ sv urinária associadas a várias patologias uriná-
é expressa em rato e, contrariamente ao TRPV1, rias 91-113 . No entanto, os mecanismos de dessen-
não é sensível a vanilóides, mas responde a tem- sibilização induzidos por estas moléculas são
peraturas nóxicas (50 C) e a pH 6,2 83-86 . A complexos e não são totalmente compreendi-
o
TRPV1β é expressa em ratinho e é sensível a va- dos. Sabe-se que o mecanismo de dessensi-
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nilóides mas também sensível a protões (pH 5,6) . bilização depende da molécula que actua no
DOR A TRPV1b é expressa tanto no rato como em hu- receptor 114,115 , do estado de fosforilação do
manos, e difere do TRPV1 por lhe faltar comple-
, do grau de polarização da membra-
TRPV1
44,116
8 tamente o exão 7 . Esta variante de splicing, a na 117 e da interacção do receptor com outras
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