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Dor (2002) 10 I. Tavares, et al.: Perspectivas de Manipulação do Sistema Endógeno de Controlo da DOR: o Bolbo Raquidiano Ventrolateral
Perspectivas de Manipulação do
Sistema Endógeno de Controlo da
DOR: o Bolbo Raquidiano Ventrolateral
1
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Isaura Tavares , António Albino-Teixeira , Deolinda Lima 1
Resumo
Neste trabalho revemos os dados relativos ao papel do bolbo raquidiano ventrolateral caudal (VLM) no
sistema endógeno de controlo da dor. Apresentamos os resultados de estudos que mostram que o VLM é
uma estrutura anatomofuncionalmente compartimentada em que a porção mais lateral (VLMlat) parece ser
a mais importante no controlo da dor e na integração das funções antinociceptiva e cardiovascular. Discute-se
a relevância destes dados na perspectiva de produção de analgesia sustentada por manipulação específica
de populações neuroniais no sistema endógeno de controlo da dor.
Palavras chave: Modulação da dor. Tronco cerebral. Integração nociceptiva e cardiovascular. Estudo
experimental.
Summary
This paper is aimed at reviewing the role of the caudal ventrolateral medulla (VLM) in the endogenous pain
modulatory system. According to recent anatomofunctional data, the VLM presents several regions of which
the lateralmost part (VLMlat) is specially devoted to nociceptive-cardiovascular integration. We further
discuss the putative aplication of these findings to the production of analgesia by specific manipulation of
the areas of the endogenous pain modulatory system.
Key words:
O conceito de que a dor possui uma natureza A complexidade do sistema endógeno de controlo da
multifacetada encontrava-se implícito na teoria clássi- dor foi-se evidenciando progressivamente. Após as
ca do gate control (Melzak e Wall, 1965). Já aí se descrições iniciais da indução de analgesia por esti-
admitiam os mecanismos de controlo supraspinhal mulação eléctrica da PAG e NRM verificou-se que os
como um dos factores determinantes das característi- componentes do sistema se distribuíam por diversas
cas do evento doloroso. As abordagens experimentais regiões encefálicas e que as suas propriedades anti-
do sistema endógeno de controlo da dor identifica- nociceptivas podiam também ser evidenciadas por
ram-no inicialmente com a substância cinzenta peri- estimulação química com glutamato e substâncias
aqueductal (PAG) e o grande núcleo do rafe (NRM) opióides (Jensen e Yaksh, 1984; revisão por Jones,
que, quando estimulados electricamente, induziam 1992). Dados mais recentes mostraram que alguns
analgesia comportamental e inibiam as respostas noci- componentes do sistema facilitam a transmissão dolo-
ceptivas de neurónios do corno dorsal da medula rosa dado que a sua estimulação induz hiperalgesia
espinhal (Liebeskind, et al., 1973; Satoh, et al., 1980). (Almeida, et al., 1996, 1999) e exarceba as respostas
de neurónios espinhais (Dugast, este número). À as-
sumpção inicial de que a acção analgésica sobre a
medula espinhal resultava de dois sistemas neuroquí-
micos distintos (noradrenérgico e serotoninérgico) tem-
se sobreposto uma visão mais complexa da participa-
1 Instituto de Histologia e Embriologia
2 Instituto de Farmacologia e Terapêutica, Faculdade de ção simultânea doutros neurotransmissores adicionais DOR
Medicina e IBMC, Universidade do Porto que interagem de um modo específico em cada com-
4200-319 Porto, Portugal ponente do sistema endógeno de controlo da dor. 11

