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Dor (2002) 10
Finalmente, o sistema participa no controlo doutras
funções que condicionam a percepção dolorosa e são
afectadas pelo evento doloroso. Apesar dos estudos
efectuados no Homem terem mostrado que a estimu-
lação eléctrica de áreas do sistema endógeno de
controlo da dor, como o tálamo e a PAG, produziam
alívio em pacientes com dor crónica (Baskin, et al.,
1986; Boivie e Meyerson, 1982; revisão por Simpson,
1999), a natureza invasiva das técnicas de estimula-
ção, associadas ao facto de algumas daquelas fun-
ções afectarem parâmetros vitais, tem restringido a
aplicação clínica dos resultados obtidos na experi-
mentação animal. Efectivamente, muitas das áreas
mais importantes do sistema endógeno de controlo da
dor localizam-se no bolbo raquidiano e são centros-
chave na modulação de funções autónomas, como a
cardiovascular e respiratória. A compreensão do fun-
cionamento daqueles componentes do sistema no con-
trolo simultâneo da dor e de outras funções pode
ajudar a estabelecer estratégias de abordagem que
maximizem as potencialidades analgésicas e evitem
os efeitos colaterais da sua estimulação. Neste traba-
lho reunimos dados recentes relativos ao funcionamen-
to do bolbo raquidiano ventrolateral caudal (VLM)
na integração das funções antinociceptiva e cardio-
vascular.
Figura 1. Diagrama ilustrativo do circuito recíproco
Envolvimento no controlo da dor entre o VLMlat e a medula espinhal. Abreviaturas:
12 – núcleo hipoglosso; DRt – núcleo reticular dorsal;
Durante os estudos do sistema endógeno de con- LRt – núcleo reticular lateral; nA – núcleo ambíguo;
trolo da dor, o VLM tem emergido como um dos Sp5C – núcleo espinhal do trigémio; VRt – núcleo
componentes preponderantes. A analgesia produzida reticular ventral.
por estimulação eléctrica ou química do VLM é mais
intensa e duradoura do que a obtida a partir da
maioria dos restantes componentes do sistema (Ge-
bhart e Ossipov, 1986; Janss and Gebhart, 1987,
1988). Para além disso, o VLM parece ser responsá- admite-se que o circuito recíproco funcione, em feed-
vel pela inibição tónica das respostas nociceptivas back, no controlo da transmissão supraspinhal da infor-
dos neurónios da medula espinhal (Foong e Duggan, mação dolorosa.
1986; Hall, et al., 1982). Os estudos anatómicos têm No que respeita às conexões indirectas com a me-
corroborado a importância do VLM no controlo da dor dula espinhal, os dados mostraram a existência de um
e apontado a sua porção mais lateral – designada circuito polissináptico que envolve o grupo noradrenér-
VLMlat (Fig. 1) – como a área mais relevante para gico A , localizado na ponte: axónios provenientes do
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aquele fenómeno. VLMlat estabelecem contactos sinápticos com neuró-
Ao contrário dos restantes componentes do VLM, o nios do grupo A que projectam para o corno dorsal da
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VLMlat recebe projecções de neurónios das lâminas medula espinhal (Tavares, et al., 1996, 1997a). A pro-
mais superficiais da medula espinhal (Lima, et al., 1991; posta de que esta via polissináptica medeia a analge-
Lima e Coimbra, 1991), que veiculam estímulos noci- sia por receptores adrenérgicos do tipo α , produzida
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ceptivos até aquela região bulbar (Menétrey, et al., a partir do VLMlat (Gebhart e Ossipov, 1986), foi
1984; Tavares, et al., 1993). No que respeita às vias recentemente confirmada por estudos funcionais. A
descendentes, o VLMlat projecta para a medula espi- destruição selectiva de neurónios noradrenérgicos do
nhal através de circuitos directos e polissinápticos. grupo A que projectam simultaneamente para a medu-
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Quanto aos primeiros, o VLMlat projecta exclusivamente la espinhal e para o VLMlat, provoca hiperalgesia e
para lâminas da medula espinhal onde ocorrem neuró- aumenta a expressão do proto-oncogene c-fos na
nios nociceptivos nomeadamente as lâminas I, IV-V e X medula espinhal, induzida por estimulação dolorosa
(Tavares e Lima, 1994; dados pessoais não publica- (dados pessoais não publicados).
dos). Dados recentes mostraram que o VLMlat forma
circuitos recíprocos com a lâmina I: axónios provenien- Integração nociceptiva e cardiovascular
tes do VLMlat contactam neurónios da lâmina I que
projectam para o VLMlat (Fig. 1). Para além disso, os A redundância aparente da coexistência de 2 vias
axónios que ascendem da medula espinhal contactam de projecção do VLMlat para a medula espinhal pode-
DOR neurónios do VLMlat que projectam para a medula (Fig. rá relacionar-se com o papel do VLMlat na integração
1). Dada a natureza nociceptiva dos neurónios espi-
de actividades antinociceptivas e cardiovasculares. A
12 nhais (Menétrey, et al., 1984; Tavares, et al., 1993), interacção entre os 2 fenómenos tem sido repetida-
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