Page 25 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Maria Madalena Martins e Maria Graça Travanca: A caminho do cuidar em enfermagem… Um outro olhar à pessoa com dor
Todos estes estudos revelam e confirmam A multidisciplinaridade relativamente ao fenó-
o nosso trabalho empírico, onde vemos que o meno dor é uma estratégia fundamental, como
tratamento da dor no pós-operatório continua a salienta Mac Lellan (1997).
ser inadequada. Também em Portugal a evidência da dor como
Edgar (1991) salienta algumas justificações um problema sério é alertada e confirmada, pelo
para esta dificuldade no tratamento da dor. Por Ministério da Saúde, quando através da Dire-
exemplo, no Canadá a pobreza de conteúdos cção Geral da Saúde, em 2001, lança um Plano
relativamente ao tratamento e controle da dor, Nacional de Luta contra a Dor, em que faz várias
na formação dos médicos e enfermeiras é um recomendações e que de entre outras salienta:
facto, constatou Watt-Watson (1989). Já como “Torna-se necessário que se assimile o con-
profissionais 64% dos médicos admitem não ceito de actuação organizada em analgesia
terem recebido formação suficiente (Schauer, pós-operatória, de forma a que os profissionais
Wetterman, et al., 1989). de saúde a quem cabe a responsabilidade
Também, nas equipas de enfermagem, os daquele controle, nomeadamente anestesistas,
mitos e preconceitos, juntamente com alguma cirurgiões e enfermeiros, se organizem em
insuficiência de conhecimentos e competências, torno de programas de acção […] que possi-
interferem no comportamento do enfermeiro ao bilitem actuações protocoladas […] garantam a
lidar no doente com dor, afectando de modo continuidade dos tratamentos e também a sua
significativo a qualidade dos cuidados a estes substituição ou alteração, permitam registos de
doentes, facto realçado por Walsh (1989). vigilância com intervalos regulares onde cons-
Já em 1990, The Royal College of Surgeon’s tem, para além dos sinais vitais, a avaliação do
(Mac Lellan, 1997) recomendava a introdução grau de dor e sedação, e que, de modo geral,
na prática do uso de um sistema simples de assegurem uma intervenção terapêutica perma-
avaliação da dor, por não existir uma avaliação nente…” (p. 29).
e registo completo e sistemático da intensidade, Verificava-se, no ano 2000, no Hospital Garcia
localização e tipo de dor, por parte dos enfer- de Orta, vontade institucional de alterar o modo
meiros (Dawn Camp, 1987; Harrison, 1993). Pa- habitual de tratamento de dor. Também a equipa
rece-nos que só uma ausência total de conheci- de enfermagem do Serviço de Cirurgia II, preocu-
mento do impacto do fenómeno dor no doente, pada com o problema, reagiu com grande re-
provocado pela sua não medição, legitima as ceptividade à proposta do enfermeiro-chefe da
atitudes encontradas nos estudos que a seguir unidade da dor sobre o seu desejo de realizar
apresentamos. Chapman, et al. (1987) verifica- um projecto-piloto sobre o alívio da dor aguda
ram que 31% das enfermeiras só dão analgési- no pós-operatório imediato. A metodologia
co, a pedido do doente, e que Cartwright (1985) proposta assentava num modelo tradicional de
encontrara que 57% de enfermeiras não davam formação em serviço, com a orientação e su-
os analgésicos prescritos quando o doente não pervisão individualizada dos enfermeiros. Esta
tinha dor. proposta foi renegociada pelo grupo, tendo em
É evidente que, conforme continua a referir conta uma experiência gratificante, de formação
Mac Lellan (1997), citando investigações de em contexto de trabalho, anteriormente vivida
Wilder-Smith e Schuler (1992), Juhl, et al. (1993), (Oliveira, et al., 2000).
Weis, et al. (1983), também a atitude do doente
é fundamental no sucesso, ou não, da terapia Desenvolvimento do projecto
analgésica, referindo os mitos e preconceitos do
próprio doente face à dor. Os estudos referem al- Para conhecer o modo como o grupo vivia o
guns desses mitos: a inevitabilidade da dor face problema do doente com dor, como fazia a sua
à cirurgia; daí só se queixarem de dor quando abordagem e como pensava evoluir, cada enfer-
ela já está instalada, e um terço dos doentes vê meiro, individualmente ou em equipa, respondeu
a dor como fortalecedora do seu carácter. por escrito a 3 questões que nos serviram de
É muito curiosa a divergência de opinião acer- base para fazer o diagnóstico da situação:
ca da importância atribuída à gestão da dor, no • Descreva com pormenor o que faz quando
estudo de Mac Lellan (1997) na Irlanda; aqui o doente tem dor.
a maioria dos profissionais de saúde considera • Que dificuldades sente?
muito importante este problema (enfermeiras • O que pensa poder-se fazer de diferente?
98%, médicos 81%) comparando com 39% dos A análise das respostas dadas revelou-nos a
doentes (Laing, et al., 1993). descrição da forma de actuar dos enfermeiros
Para melhorar a abordagem ao doente com perante um doente com dor (Quadro 1).
dor os estudos apontam a necessidade de Em relação às dificuldades no lidar com a dor
formação a médicos e enfermeiras (Harmer, do doente, elas centraram-se principalmente:
1991; Hamilton e Edgar, 1992), bem como a in- • Nos próprios enfermeiros, identificando ne-
formação e educação dos doentes, aliada tam- cessidades de formação em relação:
DOR bém à necessidade de reaprender e potenciar – Avaliar a subjectividade da dor. DOR
a utilização dos recursos já existentes (Rawal e
– Avaliar o tipo e intensidade da dor e ade-
24 Berggren, 1994). quar a analgesia prescrita. 25
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