Page 7 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 José Manuel Rodrigues Paulo: Ajudar o doente com dor: bem avaliar para melhor intervir
Dor (2003) 11
Ajudar o doente com dor:
bem avaliar para melhor intervir
José Manuel Rodrigues Paulo
Considerando que ajudar o doente com dor, O grau de aumento ou diminuição da trans-
na perspectiva da enfermagem, é sinónimo de missão sensitiva derivada do portão resulta da
cuidar, entendido como um “acto de reciprocida- actividade relativa das fibras nervosas envolvi-
de que somos levados a prestar a toda a pessoa das na nocicepção assim como das influências
que, temporária ou definitivamente, tem neces- descendentes oriundas do cérebro (controlo
sidade de ajuda…” (Collière:235), esta (relação cognitivo e controlo inibidor descendente).
de) ajuda que se estabelece durante o acto de Uma das principais consequências da teoria
cuidar implica um conhecimento profundo da do portão foi a de terminar com a ideia de que
pessoa a quem se prestam cuidados, mas tam- a dor era apenas uma simples experiência sen-
bém um autoconhecimento, igualmente profun- sorial, veiculada directamente até um centro de
do, das capacidades e limitações do cuidador, dor, e integrar a dimensão emocional no fenó-
de forma a prestar cuidados sem agredir, impor meno de percepção da dor sob a designação
ou desrespeitar a autonomia da pessoa doente, de controlo cognitivo que engloba actividades,
mas, também, não se esgotando na relação e conscientes ou não, que podem influenciar a
mantendo-se ele próprio saudável. dor, como a atenção, a sugestão, o significado,
As raízes cartesianas das ciências médicas as experiências dolorosas passadas e o grau
e de enfermagem exigem que os cuidados se de controlo que o indivíduo pensa ter sobre a
fundamentem numa análise objectiva e funda- situação.
mentada da causa do distúrbio, sendo que, no A outra componente pode ser designada por
que à dor diz respeito, esta preocupação pela expressão da dor, e é consubstanciada no com-
objectividade tem de alguma forma dificultado portamento de dor. Só temos consciência da dor
a reflexão sobre os cuidados que se prestam à dos outros através daquilo que eles próprios nos
pessoa com dor, dada a dificuldade em objecti- comunicam, verbalmente, ou de outra forma.
var o que é subjectivo por natureza…! E, no entanto, a dor desafia a linguagem (Sca-
Ao considerarmos o fenómeno da dor encon- rry, citado por Good, et al., 1994). Ao tentar des-
tramos duas componentes fundamentais (Engel crevê-la, tantas vezes as palavras se mostram
[1950] chamava-lhe a “sensação original e a re- fugidias e insuficientes, que só o corpo pode
acção à sensação”); a componente percepção expressar, da forma que sabe, o sofrimento de
ligada à estimulação sensitiva, transmissão do si- que padece. Le Breton (1995:39) escreve a
nal nociceptivo e sua interpretação pelos centros este propósito: “Le ressenti de la douleur… est
nervosos superiores. É um fenómeno endógeno, d’abord un fait personnel et intime qui échape a
do qual só se toma conhecimento na primeira toute mesure, à toute tentative de le cerner et de
pessoa. É a dor privada. A sua complexidade é le décrire, à toute volonté de dire à l’autre son
analisada por Melzack e Wall em o Desafio da dor intensité et sa nature. La douleur est un échec
(1987), onde de uma forma brilhante sintetizaram radical du langage.”
os diferentes componentes que intervêm na mo- É a expressão da dor, consubstanciada num
dulação da percepção na célebre Gate Control comportamento de dor, que transforma a perce-
Theory, sendo que os actuais conhecimentos pção individual (dor privada) em algo que pode
sobre a matéria indicam tratar-se de estruturas ser percepcionado por outros (dor pública)
bem mais complexas do que à altura se pensava. (Helman, 1994).
Basicamente, esta teoria propõe a existência de São os comportamentos de dor que permitem
um mecanismo neural funcionando como um por- aos profissionais de saúde avaliar as necessida-
tão, que ao abrir aumenta o débito dos impulsos des de intervenção junto do doente com dor. O
transmitidos ao SNC e o inverso ao fechar. que complica esta avaliação é o facto de o com-
portamento de dor ser profundamente alterado
por influências culturais – Leininger (1995:264)
define a cultura como sendo constituída pelos
DOR Enfermeiro Especialista “valores aprendidos, partilhados e transmitidos, DOR
crenças, normas e práticas de vida de um grupo
6 Unidade de Terapêutica da Dor particular que guiam o pensamento, decisões e 7
do Hospital de S. Bernardo, Setúbal

