Page 12 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Rui Manuel Teixeira: O médico de família e o tratamento da dor
Para as consultas de dor a nível hospitalar anterior um fisioterapeuta, enfermeiros, tera-
dever-se-iam reservar os casos renitentes à peuta ocupacional e técnico de serviço social.
terapêutica medicamentosa e medidas físicas, Além das funções anteriores possui também ha-
aqueles em que as terapêuticas preconizadas bilitação para a investigação clínica e o ensino
passam por técnicas diferenciadas (cirurgia, pós-graduado. Por fim, o nível III, que possui as
quimioterapia, radioterapia, hormonoterapia e características do nível anterior acrescentando
técnicas anestésicas) e as situações em que o a capacidade de investigação na área da dor
diagnóstico se torna mais difícil. e capacitada para dar formação pré- e pós-
Uma perfeita articulação entre os diferentes ní- graduada incluindo programas de mestrado e
veis de cuidados poderá rentabilizar os actuais doutoramento. Admite a possibilidade de exis-
escassos recursos humanos melhorando a qua- tência de unidades de tratamento específicas
lidade de atendimento em todos os níveis com quer em termos de tipo de dor (p. ex. cefaleias)
um menor custo para o doente e o estado. ou tipos terapêuticos (estimulação eléctrica).
Estas unidades deverão interligar-se entre si de
Dor crónica oncológica maneira concertada para que possam prestar
a assistência aos doentes com dor aguda e
A dor oncológica é um dos sintomas mais fre- crónica.
quentes do doente oncológico numa fase termi- O documento refere a variabilidade da com-
nal e no doente neoplásico em fase curativa mas posição dos elementos das equipas valorizando,
a fazer tratamentos de radioterapia e, por vezes, sobretudo, a sua formação na terapia da dor.
de quimioterapia. Esta variabilidade poderá facilitar, em muitos
Estes doentes estão frequentemente debili- locais, a sua implantação.
tados pela evolução tumoral, pela presença de Outra virtude é o plano apontar para a neces-
metástases muito limitantes da sua mobilidade sidade de protocolarizar a sua acessibilidade e
(metástases ósseas e pulmonares) e pela as- a sua articulação com outros níveis.
tenia intensa que os acompanham, pelo que Por último, a necessidade de avaliação perió-
deslocações frequentes para o controlo da dor dica de qualidade permite melhorar a prestação
poderá ser muito mal aceite por doentes e fami- dos profissionais envolvidos e apontar para ne-
liares. Mais uma vez o médico de família, pela cessidades formativas específicas que cada um
proximidade que tem e pelas possibilidades de deles possa necessitar.
dar uma assistência no domicílio, poderá ser o
pilar na assistência destes doentes. Também
aqui a boa articulação entre os diferentes níveis Problemas
de cuidados poderá permitir a sua exequibili- Um dos grandes problemas na implementação
dade. deste programa passa pelas carências a nível dos
estabelecimentos de saúde de espaços disponí-
Plano Nacional de Luta contra a Dor veis para a sua implementação. Na grande maioria
Avanços dos centros de saúde e dos hospitais, os espaços
têm de ser partilhados por diversos médicos e di-
O Plano Nacional da Luta contra a Dor foi pu- versas especialidades por escassez de espaço; a
blicada em 2001 pela Direcção Geral da Saúde necessidade de mais um espaço pode tornar-se
com a colaboração da Associação Portuguesa uma dificuldade acrescida. A sua instalação, ape-
para o Estudo da Dor, e veio preencher um vazio sar de ser apoiada pelos programas comunitários,
nas orientações para a organização das unida- é um acréscimo às despesas com instalações já
des de dor já existentes e a criar. que das despesas efectuadas uma percentagem
Nesta organização salienta-se a hierarqui- tem de ser suportada pela própria instalação.
zação das unidades estabelecendo as carac- Outra passa pela necessidade de profissionais
terísticas específicas que cada nível tem de que se dediquem a tempo inteiro à unidade da
possuir. No chamado nível básico incluem-se dor. Pensando que há escassez de profissionais
todas as formas organizadas de tratamento da habilitados, estes estão ligados ao serviço por
dor, sejam quais foram as capacidades técnicas outras actividades, pelo que a unidade da dor
que lhe estejam atribuídas. No nível I já exige um será sempre um acréscimo de trabalho, a sua
espaço próprio que serve a unidade, que pos- disponibilização será sempre acompanhada de
sui um coordenador, e é exigível três técnicos redução da acessibilidade aos serviços donde
dos quais dois treinados no tratamento da dor provêm, o acesso a novos profissionais está re-
e um terceiro que deverá ser um psiquiatra ou duzido pelas medidas de contenção económica
um psicólogo. Está desenhada para o diagnós- a que os estabelecimentos de saúde estão obri-
tico e tratamento de doentes com dor crónica, gados, podemos imaginar as dificuldades que
podendo intervir em situações de urgência e ter os gestores poderão levantar.
especialização em algumas áreas do tratamento Assim, só com grandes graus de motivação
DOR da dor. No nível II, além das características an- de todos os envolvidos, como aliás se depreen- DOR
de do próprio documento, se poderá avançar e
teriores, deverá ter uma equipa multidisciplinar
10 que inclui além dos técnicos referidos no nível isso nem sempre é possível conseguir. 11

