Page 8 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 José Manuel Rodrigues Paulo: Ajudar o doente com dor: bem avaliar para melhor intervir
acções de uma forma padronizada” – e sociais de dor que não cedem aos analgésicos. Se a
(a influência social foi definida por Secord e Bac- dor não é julgada proporcional à gravidade da
kman, citados por Vala e Monteiro [2002:227], lesão existente, nem explicada por um exame
como “quando as acções de uma pessoa são objectivo, se não cede aos tratamentos insti-
condição para as acções de outra”). tuídos e se prolonga no tempo desafiando os
Em algumas culturas, a capacidade de su- conhecimentos clínicos e os cuidados médicos
portar a dor sem manifestar o comportamento e de enfermagem, a impotência resultante do
de dor é considerado um sinal de virilidade e confronto com esta “dor rebelde” induz nos
faz parte integrante de rituais de iniciação que profissionais sentimentos de frustração que
marcam a passagem à idade adulta. Noutras compelem à procura de explicações que, à fal-
são esperadas e aceites manifestações ex- ta de melhor, implicam o rótulo de “simulação”.
travagantes de emoção na presença de dor Por detrás das dores rebeldes esconde-se mui-
(Helman, 1994:170). Esta padronização cultural tas vezes um significado não percebido pelos
do comportamento de dor, serve também os in- cuidadores, que concentram a sua atenção na
divíduos que desejam atrair sobre si a atenção, obtenção de uma resposta terapêutica imediata.
adquirir simpatia ou obter benefícios, imitando René Leriche, citado por Le Breton (1995:53),
o comportamento de dor, apresentando dor pú- chama a atenção para os riscos de não assu-
blica na ausência de dor privada. Zola, citado mir que a dor dos doentes é real, mesmo que
por Helman (1994:172), diz a este respeito: “É o seu comportamento de dor não se enquadre
a ‘adequação’ de determinados sinais com os nos comportamentos esperados pelos cuidado-
principais valores de uma sociedade que deter- res. Só há uma dor fácil de suportar, afirma, a
mina o grau de atenção recebido.” dor dos outros!
O facto de a expressão da dor ocorrer segun- Só quando as perspectivas, por vezes di-
do as “normas” culturalmente interiorizadas pela vergentes, dos profissionais de saúde e dos
pessoa que sofre, implica que a expressão ver- doentes forem igualmente consideradas e va-
bal, os gestos, as expressões faciais, a postu- lorizadas, é que cuidados apropriados e efec-
ra corporal, em resumo, o comportamento de tivos podem ser prestados (Leininger, 1995)
dor, só podem ser cabalmente interpretados dentro do contexto dos significados culturais
no contexto cultural que lhes dá origem. dos doentes.
Os profissionais de saúde vêm-se frequen- A consciência das dificuldades que se le-
temente frente ao dilema de acreditar ou não, vantam a um adequado controlo da dor tem
num comportamento de dor que exprime um induzido o aparecimento de várias orientações
sofrimento do qual nunca podem ter a certeza (guidelines) como as da Agency for Health Care
da intensidade. Wittgenstein, citado por Le Bre- Policy and Research, do National Health and Me-
ton (1995:41), diz a este propósito: “Si je puis dical Research Council e, mais recentemente, da
me représenter ma douleur, si autrui peut le faire Joint Commission on Accreditation of Healthcare
aussi, ou si nous disons que nous le pouvons, Organizations (JCAHO) e da Direcção Geral de
comment peut-on vérifier si nous nous sommes Saúde em conjunto com a Associação Portu-
correctement représenté cette douleur, et avec guesa para o Estudo da Dor (APED), com o
quel degré d’incertitude”, para concluir que, objectivo de orientar os profissionais de saúde
se as manifestações exteriores me informam na avaliação e tratamento da dor, no sentido de
do sofrimento do outro, não transmitem uma melhorar a qualidade, a eficácia e a adequabi-
medida objectiva da intensidade desse mesmo lidade do manejo da dor.
sofrimento. Essa intensidade será sempre um Apesar do reconhecimento dos benefícios do
dado privado. correcto tratamento da dor e das diversas orien-
Se o comportamento de dor é influenciado pelos tações, nomeadamente no âmbito da dor aguda
valores culturais e atitudes sociais, também a ava- e da dor crónica, Raval (2001) afirma que os
liação da dor pelos profissionais e as intervenções dados disponíveis não são encorajadores. De
preconizadas para o seu alívio são influenciadas facto, segundo este autor, muitos hospitais ainda
pelas características individuais e culturais dos não assumiram a implementação de serviços de
prestadores de cuidados e pelos contextos onde dor, por razões que considera terem a ver com
os cuidados são prestados (Leininger, 1995:272). constrangimentos orçamentais e com a falta de
Dado que o conforto dos doentes depende conhecimento científico sobre o problema da dor
da capacidade dos médicos e enfermeiros em nos profissionais e gestores das instituições.
compreender e respeitar a diversidade dos sig- A criação de serviços (ou unidades) de dor
nificados e expressões de dor, é fundamental é defendida como um meio para ultrapassar as
que os profissionais sejam capazes de reflectir, potenciais barreiras que se levantam ao adequa-
sobre os significados que atribuem aos compor- do tratamento da dor (Bucknall, Manias e Botti,
tamentos de dor, os valores que lhe estão subja- 2001) e providenciar o suporte interdisciplinar
centes e a forma como eles se enquadram nas necessário para uma segura e eficaz gestão da
DOR referências sociais e culturais do doente. dor, sendo que, o serviço de dor constituído por DOR
A formação biomédica revela-se muitas vezes
uma equipa multidisciplinar é o mais apto para
6 insuficiente para fazer face a comportamentos ultrapassar com êxito as diversas barreiras que 7
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