Page 11 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Rui Manuel Teixeira: O médico de família e o tratamento da dor
de dores crónicas e custam ao governo ameri- invalidante a curto ou a longo prazo (Ministère
cano cerca de 100 biliões de dólares por ano. de l’Emploi et de la Solidarité et Ministère Dé-
Em Portugal não há estatísticas oficiais conhe- légué à la Santé, 2001) . Com estas alterações
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cidas mas os valores não deverão estar muito há uma clara perda de qualidade de vida do
longe da realidade dos outros países. doente, que se vê limitado nas suas actividades
mais básicas.
Estado actual dos apoios aos doentes Frequentemente, a dor crónica é acompanhada
com dor crónica de sintomas físicos e achados nos exames com-
plementares muito escassos e com um compo-
A situação de apoio aos doentes com dor cró- nente psicológico muito intenso (Paulino, 1994) .
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nica ainda é muito incipiente no nosso país. Con- Contudo, com isto não se pode pressupor
tudo, um pouco por todo o lado tem-se vindo que a dor crónica seja de origem psicogénica,
a desenvolver unidades de dor mais ou menos mas deveremos observá-la como uma dor que
complexas que, mesmo assim, não permitem levanta ao clínico um desafio no diagnóstico da
dar resposta a todas as situações. doença causal. É frequente que a dor seja um
Segundo os dados oficiais (Direcção Geral primeiro sintoma de uma doença oculta que ne-
de Saúde, 2001) , em 2001 existiam em Portu- cessita de ser diagnosticada.
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gal 21 unidades de nível básico, 6 unidades de Podemos de uma forma simplista distinguir
nível I, 9 unidades de nível II e nenhuma uni- dois tipos de dor crónica: a dor crónica não
dade do nível III. Nenhumas destas unidades oncológica e a dor crónica oncológica.
foram localizadas nos centros de saúde.
Assim podemos verificar a insuficiência nos Dor crónica não oncológica
apoios aos doentes com dor crónica. A maioria
dos doentes é tratada pelo médico de família ou É uma situação frequente na clínica do mé-
por outros especialistas sem ser feita qualquer dico de família. A ele recorrem quase todos os
avaliação sistematizada valorizando os aspectos doentes com o fim de conseguir alívio para uma
físicos do doente e esquecendo frequentemente dor persistente e incómoda que não melhora
os aspectos psicológicos e sociais que estão com as terapêuticas já efectuadas.
envolvidos conjuntamente. Desta forma, poder- Muitas atitudes são realizáveis ao nível dos
se-á antever que os doentes poderão ser inade- cuidados primários quer antes do diagnóstico
quadamente medicados, recorrendo simultanea- causal, quer na pesquisa das etiologias da dor
mente a diversos terapeutas com a possibilidade quer no seguimento do doente com dor crónica
de sobreposição de medicamentos. com diagnóstico já estabelecido.
Dentro delas saliento as medidas para contro-
Papel do médico de família lo dos estilos de vida favorecedoras da dor. O
Mas qual o papel do médico de família? Mui- stress, as posturas, o exercício físico e a insónia
tos médicos de família referem ter dificuldades são alguns deles, embora para o fazer necessi-
na abordagem da dor crónica. Mas eles são, temos de alguma formação específica. Embora
de facto, os primeiros a terem que enfrentar o idealmente as técnicas de relaxamento devam
problema que é trazido pelos doentes. Pela es- ser feitas por psicólogos, na sua ausência (o
cassez de apoios institucionais é também que que é mais frequente) poderá a equipa de saú-
ele terá de resolver os problemas. Também de dos cuidados primários aprender a aplicá-las
pelas dificuldades de mobilização de alguns promovendo uma redução do stress. Outras téc-
destes doentes poderão ter de assumir o seu nicas poderão incluir a terapia ocupacional e as
tratamento continuado. manobras de fisioterapia embora estas já sejam
Mas o que parece uma contradição (capa- mais do âmbito de especialistas desta área a
cidade limitada de intervenção e necessida- que a maioria da população não tem acesso.
de absoluta de o fazer) pode ser a motivação Também as terapias físicas como a apli-
necessária para promover a formação dos cação de calor e do frio local são de fácil
técnicos dotando-os de capacidade de inter- aplicação nos cuidados primários.
venção a nível básico e aumentando a aces- As terapêuticas medicamentosas são armas
sibilidade às unidades mais diferenciadas do que o médico de família possui para o contro-
tratamento dor aos doentes em que seja mais lo das dores crónicas mas também aqui urge
difícil o controlo. dar formação aos técnicos para permitir que
uma adequada escolha dos fármacos possi-
bilite uma optimização dos recursos com uma
A dor crónica redução dos efeitos colaterais que frequente-
Definição mente acompanham esses fármacos.
Não se pretende aqui menosprezar o papel
A dor crónica, ao contrário da dor aguda, dos terapeutas da dor mas antes preparar mé-
DOR apresenta-se como uma dor de longa duração dicos de família que possam reduzir a procura DOR
mais resistente às terapêuticas antálgicas e
desses técnicos de forma sistemática sobrelo-
10 que frequentemente conduz a uma situação tando os serviços hospitalares. 11

