Page 10 Volume 16 - N.1 - 2008
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J.M. Caseiro: Dor Aguda Não-Cirúrgica: Reflexões
• «O outro doente que está a ser tratado, é – Dor ortopédica (de qualquer região – mem-
mais importante do que eu!». bros, tórax, coluna vertebral, etc.).
– Gestores de saúde: – Dor muscular (lombalgia de impacto, tor-
• «Tratar a dor não é uma necessidade prio- ção, etc.).
ritária». – Dor abdominal (somática, visceral, vascular,
• «O efectivo controlo da dor sai caro». etc.).
São estes equívocos que determinam, em pri- – Dor do politraumatizado.
meira linha, o insucesso que a maior parte das No doente politraumatizado, exige-se sempre
vezes caracteriza a actuação antiálgica nos Ser- uma abordagem sistematizada, efectuada pelas
viços de Urgência, mas também a incapacidade equipas multidisciplinares de trauma, definindo
que, frequentemente, existe em chegar a um as diferentes necessidades analgésicas desde
diagnóstico e em se conseguir ser efectivamen- o início e consoante a gravidade, num contexto
te mais eficaz na terapêutica analgésica a adop- que requer muitas vezes opióides e o recurso a
tar. Ou ainda, o compromisso que existe entre bloqueios anestésicos periféricos (intercostais,
eficácia e segurança (é verdade que quem se paravertebrais, zonas trigger, etc.).
preocupar apenas com a eficácia, correrá mais
riscos, embora não haja qualquer evidência que Dor por queimadura
uma adequada intervenção analgésica possa As lesões por queimadura cursam com dor
dificultar um diagnóstico, mas quem eleger ape- intensa e internamentos muitas vezes prolonga-
nas a segurança como objectivo e adopte a dos e constituem uma das situações que mais
postura de utilizar doses subterapêuticas, jamais problemas coloca aos doentes e aos profissio-
conseguirá aliviar convenientemente o sofrimen- nais de saúde, já que, nos grandes queimados,
to do doente que tem pela frente). para além de uma correcta avaliação e classifi-
Então, quais são as situações que mais fre- cação dos tecidos lesados (queimaduras de 1. ,
o
quentemente fazem os doentes recorrer aos Ser- 2. e 3. grau), estão associados vários compo-
o
o
viços de Urgência por sintomatologia dolorosa? nentes dolorosos: os que resultam directamente
– Dor abdominal aguda. das lesões, os que são consequência dos pro-
– Dor traumática. cedimentos terapêuticos e os que surgem com
– Dor por queimadura. o início da regeneração celular.
– Dor aguda cardiovascular. Nestes doentes, a dor é muito persistente, não
– Agudização de dor crónica. tende necessariamente a diminuir ao longo do
– Dor aguda reumatológica e inflamatória. tempo e até ao seu desaparecimento, manten-
– Dor aguda de diversas situações clínicas do-se frequentemente quase até ao momento da
dolorosas. alta hospitalar, variando imenso em cada doente
e entre eles.
Dor abdominal aguda Há um figurino basal, em que o doente refere
São vários os quadros de dor abdominal agu- dor em repouso e nas áreas lesadas e/ou sub-
da que podem levar um doente a procurar um metidas a enxerto e um figurino incidental, que
Serviço de Urgência. Será possível organizá-los surge com as mudanças de posição e as tenta-
da seguinte maneira: tivas de andar.
– De origem abdominal: A componente psicológica é omnipresente e
• Visceral (dor biliar, cólica renal, obstrução a intervenção terapêutica sobre ela determinan-
intestinal, gravidez ectópica, etc.). te, uma vez que a sucessão de tratamentos de
• Somática (peritonite, situações inflamatórias limpeza e enxertos gera níveis de ansiedade
pélvicas, endometrioses, linfadenites, dor elevados, sistematicamente acompanhados de
da parede abdominal, etc…). um quadro depressivo tendencialmente major.
– De origem extra-abdominal: Sendo uma das mais graves situações de dor
• Torácica (pneumopatia, enfarte, pneumotó- aguda com que os Serviços de Urgência têm
rax, etc.). que lidar, e apesar de todos eles serem invaria-
• Neuropática ou neurogénica (radiculite, velmente tratados em unidades específicas para
causalgia, herpes zoster, etc.). o efeito, continua a existir a convicção de que
• Metabólica (síndrome urémica, porfíria, in- são muitas vezes submedicados, dado o soma-
suficiência cortico-supra-renal, etc.). tório de factores que se juntam em cada um
• Tóxica (envenenamento, fármacos, etc.). deles:
• Psicogénica. – Variabilidade na intensidade dolorosa de
doente para doente.
– Diminuição progressiva da resistência à dor
Dor traumática pela multiplicidade de intervenções tera-
Esta é uma situação muito particular dos Ser- pêuticas, principalmente se em cada uma
viços de Urgência, já que os doentes acidenta- delas a analgesia for insuficiente.
dos de qualquer natureza podem exibir quadros – Desenvolvimento quase garantido de dor DOR
dolorosos de várias etiologias. São no entanto neuropática pela destruição de terminações
muito prevalentes: nervosas. 9

