Page 9 Volume 16 - N.1 - 2008
P. 9



Dor (2008) 1

Quadro 1. Abordagem da dor aguda
Tipo de dor Característica Local Clínico
Dor aguda da intervenção clínica
Analgesia pós-operatória Organizável Unidades Dor Aguda Anestesista
Analgesia ex. complementares Organizável Unidades Dor Aguda Anestesista
Dor aguda do trabalho de parto
Analgesia de parto Organizável Unidades Dor Aguda Anestesista
de Analgesia de Parto
Dor aguda de doenças ou acidentes
No âmbito da Urgência Não-organizável Serv. Urgência Médico da Urgência
No âmbito das esp. médicas Não-organizável Consulta/Enfermaria Especialista da doença base




causa conhecida, não sendo o seu alívio ex- qualquer clínico que se interesse pelo assunto,
clusivamente dependente da utilização de anal- mesmo que, na sua prática diária, não esteja em
gésicos nem tão-pouco da eficácia obtida na presença física num atendimento dessa nature-
eliminação da referida e eventual causa. za, pelo menos com a regularidade que carac-
Daqui até assumir-se a denominação de dor teriza um serviço de emergência médica ou
aguda como sinónimo de dor do pós-operatório médico-cirúrgica.
foi um passo, pela forma como a dor provocada E aqui surge a primeira dificuldade: quem se
pela intervenção cirúrgica se ajustava perfeita- dedica ao estudo, controlo e terapêutica da dor
mente – como nenhuma outra – à definição vei- (aguda ou crónica), raramente são clínicos que
culada pela IASP. estão presentes com assiduidade nos Serviços
De facto, tratando-se de uma dor iatrogénica de Urgência, o que significa que, de uma forma
resultante de um tratamento invasivo progra- geral, quem tem que se confrontar com esta
mado ou programável no essencial (mesmo em realidade são profissionais de saúde (médicos
situação de urgência), na dor aguda do pós- ou enfermeiros) que não são verdadeiramente
operatório é sempre possível que os clínicos peritos ou reconhecidamente experientes no tra-
antecipem os seus propósitos analgésicos pelo tamento da dor e que resumem a sua prepara-
conhecimento que têm da causa, das estruturas ção nesta área a uma série de conhecimentos
envolvidas e do momento em que tudo se ini- de carácter geral que lhes tornam a vida difícil
ciou. É mesmo a única forma de dor que permi- no natural desejo de ajudar com alguma eficácia
te saber «hoje» que vai doer «amanhã», «por- os doentes.
quê» e «onde». Não resta qualquer dúvida de que os doentes
É também certo que existem outras formas de que recorrem de urgência aos hospitais para
dor aguda que não a pós-operatória, mas que, alívio de dor aguda são, de um modo geral,
ao contrário desta, impossibilitam que os clíni- subtratados, mas isso não se deve somente à
cos se organizem em torno dela, seja pela sua falta de treino dos profissionais de saúde ou ao
imprevisibilidade, seja pela multiplicidade de receio exagerado das consequências nefastas
causas ou mesmo pela dispersão dos doentes da utilização de fármacos ou técnicas analgési-
afectados que não surgem concentrados nas cas; deve-se também, em grande parte, à falta
especialidades cirúrgicas, retirando a estes do- de investimento nesta área e à incapacidade
entes qualquer possibilidade de usufruírem de que a sociedade civil tem em atribuir a devida
uma organização específica de combate à dor importância ao fenómeno doloroso. A IASP aler-
por peritos em analgesia, como se passa nas ta bastante para o facto e refere da seguinte
Unidades de Dor Aguda do Pós-Operatório maneira o contexto mental em que os vários
(Quadro 1). grupos socioprofissionais tendem a olhar para
A maior parte das vezes, a dor aguda não- os doentes com dor:
cirúrgica surpreende tudo e todos, surgindo re- – Profissionais de saúde:
pentinamente como resultado de acidente (trau- • «Doer, é normal e não é grave».
ma, queimadura), infecção (odontalgia, abcesso), • «Os opióides são perigosos, por causa dos
doença súbita (enfarte agudo do miocárdio, lití- seus efeitos secundários».
ase renal) ou agudização de doença crónica • «O doente que se queixa é um mau do-
(dor irruptiva), colocando a sua terapêutica, na ente».
esmagadora maioria das vezes, no âmbito dos • «Uma dose usual é quase sempre boa e
Serviços de Urgência e, ao contrário da dor pós- efectiva».
operatória, com a sua causa ainda não tratada. – Doentes e familiares:
DOR emergência apresenta características de tal • «A dor é uma coisa inevitável».
A abordagem da «dor aguda» num serviço de
• «Os médicos e enfermeiros são desumanos
8 complexidade que torna este tema aliciante para e negligentes».
   4   5   6   7   8   9   10   11   12   13   14