Page 14 Volume 16 - N.1 - 2008
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J. Valentim: Dor Aguda do Pós-Operatório – Princípios Básicos
«Todo o doente tem direito ao tratamento efi- Seguidamente, e ainda a nível periférico,
caz da dor pós-cirúrgica, assim como efeitos verifica-se o aumento da sensibilidade de trans-
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secundários tais como náuseas e vómitos» . dução dos nociceptores de alto limiar, quando
expostos a todo um cocktail sensibilizante cons-
Definição tituído por diversos mediadores libertados pela
A dor aguda é definida como «uma dor de reacção inflamatória da destruição tissular (his-
início recente e de provável duração limitada, tamina, bradiquinina, leucotrienos, factor de cres-
existindo normalmente uma relação temporal e cimento dos nervos, neuropéptidos, prostaglan-
causal identificável com trauma ou doença» dinas, etc.).
(Ready LB, Edwards J, 1992). É a partir desta sensibilização periférica e de
A dor cirúrgica é a causa mais frequente de uma barragem de impulsos aferentes que vão
dor aguda, entre outras como o trauma, as quei- estimular duradouramente os neurónios espi-
maduras, o trabalho de parto, os procedimentos nhais, que se dá a sensibilização central, carac-
diagnósticos e/ou terapêuticos e as manifesta- teristicamente persistente, permanecendo muito
ções álgicas agudas de algumas doenças (por para além do que a duração do estímulo nóxico
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vezes, crónicas). poderia fazer esperar ou prever .
O trauma cirúrgico implica, habitualmente,
não só as partes estruturais do organismo (pele, Nocicepção
músculos, ossos), como também estruturas vis- As considerações acima referidas sobre a fi-
cerais e nervosas, o que se traduz por quadros siopatologia da dor aguda do pós-operatório,
álgicos mistos, muitas vezes complexos, surgin- apesar de resumidas, deixam compreender que
do simultaneamente com componentes somáti- as causas e os mecanismos de transmissão da
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ca, visceral e neuropática . dor cirúrgica são múltiplos, o que significa que
não há apenas um tipo ou uma forma de dor.
Particularidades da dor pós-operatória São quatro os processos de nocicepção:
– É muitas vezes descrita como contínua e nor- 1. A transdução é o processo pelo qual um
malmente referenciada à incisão cirúrgica. estímulo nóxico se transforma em activida-
– Existe exacerbação aguda da dor relaciona- de eléctrica nas terminações nervosas.
da com a tosse e actividades como sair da 2. A transmissão é o modo de propagação
cama, fisioterapia e mudança de pensos. dos impulsos através do sistema nervoso
– Habitualmente a dor é proporcional ao grau central (SNC) sensorial.
de destruição tissular e desaparece com a 3. A modulação corresponde ao processo de
resolução da lesão. modificação da transmissão nociceptiva,
– Normalmente, é uma situação autolimitada, através de uma série de influências neuro-
havendo uma melhoria progressiva num pe- nais (via descendente) atenuando os efeitos
ríodo de tempo relativamente curto. da agressão álgica.
4. A percepção é o processo de integração de
Fisiologia da dor do pós-operatório todos os anteriores com as características
psicológicas individuais – genéticas, cogni-
Fisiopatologia tivas, culturais, religiosas, etc. – criando a
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Em resposta à agressão cirúrgica, o organismo experiência emocional e subjectiva da dor .
desenvolve um estado de sensibilização periféri-
co com tradução central imediata e que se ca- Efeitos adversos da dor do pós-operatório
racteriza por três estádios álgicos patológicos: Se é certo que a dor aguda e, como tal, a dor
1. A hiperalgesia primária, ou seja, o aumento pós-operatória, cumpre uma importante função
da resposta ao estímulo agressor. biológica de alerta, desencadeando um conjunto
2. A hiperalgesia secundária, que se traduz no de acções de carácter defensivo, também é ver-
aumento da área de sensibilização às zo- dade que a resposta hormonal ao stress cirúrgico
nas contíguas ao local da lesão. tem efeitos emocionais e fisiológicos adversos
3. A alodinia, que significa a redução do limiar que devem eticamente ser evitados ou tratados,
de excitação, ou seja, resposta dolorosa a para protecção e conforto dos doentes.
estímulos que, em condições normais, não
a desencadeariam. Alterações fisiopatológicas
Para o estado de sensibilização periférica,
contribuem os fenómenos inflamatórios resul- As alterações fisiológicas desencadeadas
tantes da destruição tissular provocada pela pela dor e pela agressão cirúrgica resultam da
agressão cirúrgica, assim como a destruição activação do sistema nervoso central e periféri-
das terminações nervosas das minúsculas fi- co (Woolf CJ, 1989; Kehlet H, 1997). A stress
bras amielínicas C e das fibras mielínicas Aδ. response desencadeada pela lesão determina
Estamos, portanto, perante uma dor clínica com uma resposta metabólica atribuída à libertação DOR
componentes simultaneamente inflamatório e sistémica de hormonas neuroendócrinas e à li-
neuropático. bertação local de citocinas (e.g. interleucinas, 13

