Page 15 Volume 16 - N.1 - 2008
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Dor (2008) 1
factor de necrose tumoral), determinando altera- de conseguir comunicar, eles perdem efectiva-
ções fisiológicas em todos os principais órgãos mente a sua autonomia (Cousins M, et al., 2004).
e sistemas. Nalgumas formas de dor aguda, a abordagem
A dor cirúrgica pode activar o sistema nervoso psicológica e ambiental adequada na fase agu-
simpático, aumentando a frequência cardíaca, o da pode ser determinante na não-progressão da
ionotropismo e a pressão arterial. E, se por um dor para uma fase persistente (crónica) .
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lado, estes efeitos aumentam também a neces-
sidade do miocárdio em oxigénio, por outro lado, Progressão da dor aguda para dor crónica
diminuem esse fornecimento, o que aumenta o
risco de isquemia do miocárdio, particularmente A importância de se abordar a relação entre dor
em doentes com doença cardíaca prévia. O au- aguda e crónica tem tido muito destaque ultima-
mento da actividade do sistema nervoso simpá- mente. Para realçar esta relação, a dor crónica é
tico também diminui a motilidade gastrointesti- cada vez mais referida como dor persistente. Um
nal, podendo determinar íleos. levantamento da incidência de incapacidade re-
A dor intensa após cirurgia abdominal alta ou lacionada com dor crónica concluiu que os pa-
torácica contribui muito para dificuldade do do- cientes referem muitas vezes o começo da sua
ente em tossir (ou até respirar), reduzindo a ca- dor numa lesão aguda, chamando a atenção para
pacidade residual funcional, podendo implicar a necessidade de impedir a progressão da dor
atelectasias e alterações da ventilação-perfusão, aguda para dor crónica (Blyth FM, et al., 2003).
hipoxemia e um aumento da incidência de com- A associação entre dor aguda e crónica está
plicações pulmonares. A stress response tam- bem definida, mas poucos estudos aleatórios
bém contribui para a diminuição da resposta têm abordado factores como: a etiologia, o inter-
imunitária (celular e humoral) e para uma situa- valo de tempo, a prevenção ou a terapêutica da
ção de hipercoagulação, ambos complicando o transição entre os dois tipos de dor.
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período pós-operatório (Liu SS, et al., 1995). A dor crónica é comum após a cirurgia , e
Os doentes com maior risco de complicações representa uma importante causa de incapaci-
provocadas por dor cirúrgica não tratada são as dade permanente, muitas vezes com conse-
crianças, os idosos, aqueles com patologia asso- quências económicas consideráveis. Essa dor
ciada grave e os submetidos a grande cirurgia. tem frequentemente uma componente neuropá-
Assim sendo, e resumindo o acima descrito, tica e pode aparecer precocemente no período
o controlo da dor representa uma mais-valia fun- pós-operatório.
damental, melhorando o prognóstico clínico ao Há alguma evidência de que intervir precoce-
reduzir a incidência de complicações pós-ope- mente com técnicas analgésicas específicas
ratórias como: pode reduzir a incidência de dor crónica após a
– Enfarte do miocárdio ou isquemia. cirurgia.
– Risco de taquicardia e disritmia.
– Atraso na cicatrização da ferida operatória. Tratamento
– Risco de atelectasias. O objectivo do tratamento da dor do pós-ope-
– Fenómenos tromboembólicos. ratório tem nos seus propósitos uma vertente
– Vasoconstrição periférica. subjectiva, que é o conforto do doente, e uma
– Acidose metabólica. vertente fisiológica, que visa a inibição dos im-
pulsos nociceptivos induzidos pelo trauma cirúr-
Alterações psicológicasç gico, atenuando assim as respostas reflexas à
dor e os seus efeitos adversos e contribuindo
Os efeitos psicológicos da dor aguda são tão para uma melhor homeostasia.
prejudiciais como os fisiopatológicos, embora
possam ser menos óbvios. Eles interagem com Factores que influenciam as necessidades
os efeitos fisiológicos e, muitas vezes, fazem par-
te de um ciclo vicioso (Dianrello, 1984; Cousins, analgésicas
Phillips, 1986). As alterações psicológicas asso- Existem alguns factores a ter em conta na
ciadas com a dor aguda têm recebido menos programação de uma estratégia analgésica, tais
atenção do que aquelas associadas à dor cróni- como:
ca, porém elas não são menos importantes. Uma – Local da intervenção cirúrgica: procedi-
estimulação nociceptiva persistente, como a que mentos torácicos ou abdominais altos estão
ocorre após a cirurgia, trauma ou queimadura, associados com dor mais intensa.
pode ter uma influência importante na função psi- – Idade do doente: o doente idoso necessita
cológica, o que, por sua vez, pode alterar a per- de doses menores.
cepção. A dor aguda não controlada pode resul- – Sexo: em geral, o sexo feminino apresenta
tar no aumento da ansiedade, dificuldade em uma maior tolerância à dor.
dormir, desmoralização, sentimento de desampa- – Terapêutica com analgésicos no pré-opera-
DOR ro, perda de controle, incapacidade de raciocí- – Antecedentes de dor mal ou dificilmente
tório.
nios básicos e de interagir com os outros e, em
14 situações extremas, em que os doentes deixam controlada.
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