Page 20 Volume 16 - N.1 - 2008
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A. Saraiva: Organização da Dor Aguda do Pós-Operatório
Com a associação de morfina aos anestésicos modelo americano (baseado no anestesiologis-
locais, no início dos anos 80, verificou-se melho- ta) não era fácil de aplicar no sistema de saúde
ria da qualidade analgésica mas, depressão europeu. Era caro dedicar médicos altamente
respiratória, náuseas e prurido foram comuns, treinados especificamente às UDA.
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potenciando os efeitos adversos . Neste contexto, Rawal, em 1997, descreveu o
Perante estes condicionantes, estas técnicas modelo europeu (baseado no enfermeiro e su-
eram utilizadas somente quando o doente ia pervisionado pelo anestesista) onde procura en-
para a sala de recobro ou Unidade de Cuidados volver todos os enfermeiros de forma a propor-
Intensivos, o que limitou a aplicação deste mé- cionar a melhor e mais segura analgesia
todo analgésico. independentemente da técnica analgésica usa-
Com o objectivo de melhorar a qualidade da9. Este modelo de UDA, como programa or-
analgésica da dor pós-operatória e ultrapassar ganizativo foi implementado, no Centro Hospita-
um dos obstáculos à realização destas técnicas, lar de Öredo na Suécia, e é hoje considerado
rapidamente se assistiu ao desenvolvimento de uma referência dentro dos modelos europeus .
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um balanço entre os efeitos analgésicos e os As UDA, tal como outros serviços médicos,
efeitos adversos, baixando a dose e a velocida- são condicionadas por factores locais nacionais,
de de perfusão do anestésico local associado a os quais determinam a sua evolução.
um opióide, bem como o nível segmentar do Nos EUA, como já referido anteriormente, es-
cateter epidural. tes serviços, sendo multidisciplinares, são base-
Os potenciais benefícios da analgesia epidu- ados no anestesiologista e dirigem-se aos doen-
ral (redução do tromboembolismo pós-operató- tes cirúrgicos que recebem técnicas como PCA
rio, íleos e balanço nitrogenado negativo) e o e analgesia epidural com opióide. Modelos se-
aumento do conforto dos doentes recebendo melhantes foram usados na Austrália e Nova
analgesia controlada pelo doente (PCA) rapida- Zelândia.
mente se tornaram notórios, contudo não pode- Contudo, Rawal sugeriu que este modelo era
riam ser obtidos sem uma organização do pós- caro e só uma pequena percentagem da popu-
operatório, que passaria pela vigilância feita lação cirúrgica beneficia dos cuidados destes
pelos enfermeiros de todos os doentes com PCA serviços. Assim, este autor defende um modelo
e analgesia epidural. de baixo custo baseado no enfermeiro com ên-
A organização de estruturas com pessoal de- fase na comunicação, educação de todo o staff
dicado tornava-se um imperativo para que um envolvido e avaliação da dor de rotina em todos
maior número de doentes pudessem usufruir os doentes com dor aguda, com recurso a sco-
das vantagens destas técnicas no tratamento re de dor. A avaliação e registo da intensidade
efectivo da dor severa após cirurgia major. de dor de cada doente, usando a escala visual
analógica (EVA), é feita com intervalos de três
Modelos de Unidade de Dor Aguda horas. Esta avaliação deverá ser feita com o
doente em repouso e durante o movimento, bem
Esta necessidade de se organizar a analgesia como antes e após uma intervenção terapêutica.
do pós-operatório foi materializada no trabalho O doente com score de dor 3/10 deverá ser
de C. Maier (Alemanha), publicado em 1986. tratado. Se não ocorre melhoria com a interven-
No entanto, foi B. Ready em 1988, nos EUA ção terapêutica, deverá ser contactado o anes-
quem publicou pela primeira vez as bases de tesista.
desenvolvimento de uma verdadeira UDA. O pré-requisito para o sucesso deste modelo
B. Ready, et al. descreveram a experiência de de baixo custo é o envolvimento de todos os que
uma unidade baseada nos anestesiologistas, no cuidam do doente cirúrgico.
tratamento de dor no pós-operatório em 820 do- Nesta estrutura organizada, o tratamento do
entes onde foi usada a PCA e analgesia epidural doente é baseado em protocolos de actuação
com opióide. Este marco claramente demons- analgésica.
trou que novas técnicas sofisticadas poderiam
ser usadas para melhorar o alívio da dor pós- Objectivos de uma Unidade de Dor Aguda
operatória. Contudo, para serem usadas com
segurança, elas teriam de ser utilizadas sob vi- Os objectivos de uma UDA foram resumidos
gilância de uma equipa multidisciplinar com res- no Joint College Working Party Report on Posto-
ponsabilidade para a formação e implementa- perative Pain em 1990 e são:
ção de protocolos de actuação. – Responsabilidade no tratamento diário da
A ideia de que tão importante como qualquer dor aguda após cirurgia.
terapêutica para a eficácia analgésica do pós- – Organização de serviços em que o nível de
operatório eram as condições de organização e cuidados e monitorização são apropriados
vigilância em que se tratam os doentes fica am- às condições clínicas do doente e técnicas
plamente demonstrada. envolvidas no tratamento da dor aguda.
Nos anos 90, quando os hospitais europeus – Promover a formação de médicos e en- DOR
começaram a avaliar o impacto económico da fermeiros envolvidos no tratamento da
analgesia, rapidamente constataram que o dor pós-operatória. Devem estar incluídos 19

