Page 16 Volume 16 - N.1 - 2008
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J. Valentim: Dor Aguda do Pós-Operatório – Princípios Básicos
– Doenças associadas tais como hipertiroidis- – Os anestésicos locais são os bloqueadores
mo, ansiedade, depressão, insuficiência re- por excelência da transmissão a todos os
nal e/ou hepática. níveis, quer periférico quer central.
– Hábitos de toxicodependência, síndromes de – O paracetamol tem uma actividade predo-
abstinência, programas de desintoxicação. minantemente central, sendo o fármaco de
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– Factores culturais e religiosos. referência na modulação descendente .
– Esclarecimento e informação prestada ao – Os opióides intervêm na modulação central
doente no pré-operatório. O esclarecimento e na percepção.
do doente deve ser feito de forma adequa-
da e pode melhorar as expectativas, au- A cirurgia de ambulatório: um desafio analgésico
mentar a tolerância à dor e conseguir uma Com o objectivo ambicioso de alcançar nos
colaboração efectiva nas diversas técnicas próximos anos 50% dos procedimentos cirúrgi-
de controlo da dor. cos, a cirurgia de ambulatório será, sem dúvida,
– Comportamento dos profissionais de saúde . uma área de grande desenvolvimento no futuro
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Preemptive analgesia e analgesia multimodal próximo.
O controlo adequado da dor do pós-operatório
O conceito de preemptive analgesia ou anal- é frequentemente o factor determinante segundo
gesia por preempção surgiu em 1988, tentando o qual um doente pode ou não ser incluído num
expressar a ideia da possibilidade de prevenir a programa de cirurgia de ambulatório .
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dor cirúrgica tratando-a antes que surja, ou seja,
antecipando a sua terapêutica.
Assim, a preemptive analgesia não visa tanto Factores de previsibilidade de dor
alívio da dor, mas sim um efeito de dessensibi- Há estudos que referem que a incidência de
lização álgica, de modo a que surja com menor dor intensa em cirurgia de ambulatório é de
intensidade no pós-operatório. O objectivo é 5,3% nas primeiras 24 horas, sendo os doentes
esse: impedir os estados de hipersensibilidade sujeitos a procedimentos ortopédicos os que ti-
que ocorrem após a agressão cirúrgica . veram maior incidência de dor intensa.
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Este conceito pressupõe, portanto, que uma Outro factor de previsão de dor intensa é o
intervenção analgésica iniciada antes do estímu- tipo de cirurgia, particularmente a cura cirúrgica
lo nociceptivo acontecer, será mais eficaz que a de hérnia inguinal, cirurgia laparoscópica e ci-
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mesma intervenção praticada apenas depois , rurgia plástica .
existindo já evidência científica de nível I em O índice de massa corporal elevado e a dura-
relação a métodos usados como preemptive ção da anestesia também foram factores signifi-
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analgesia: a analgesia epidural tem um efeito cativos na previsão de dor intensa .
benéfico inequívoco; a infiltração prévia do local Segundo alguns autores, o melhor índice de
de incisão com anestésico local e a utilização de previsão de dor intensa no domicílio é a dor não
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anti-inflamatórios não-esteróides (AINE) podem controlada nas primeiras horas após a cirurgia .
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ter um efeito significativo . UCPA: Unidade de Cuidados Pós-Anestésicos
Strassels, et al., 2002: Strassels, S et al 2002
A analgesia multimodal ou balanceada consis- Efeitos adversos da dor não controlada
te, mais do que numa técnica, numa atitude que em cirurgia de ambulatório
permita, utilizando fármacos de grupos distintos
e técnicas diversificadas, interferir nos diferentes Uma analgesia insuficiente pode atrasar a alta
momentos do período perioperatório, nos vários do doente para o domicílio. A dor foi a causa
processos da nocicepção e nos diversos com- mais frequente de atraso na passagem da Uni-
ponentes da dor cirúrgica (somática, visceral e dade de Cuidados Pós-Anestésicos (UCPA) da
neuropática). fase I para a fase II, afectando 24% de todos os
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Para cada um dos processos de nocicepção doentes . A dor não controlada é também uma
(transdução, transmissão, modulação e percep- causa importante de náuseas e vómitos, prolon-
ção) existem fármacos de actuação preferencial gando a estada do doente na UCPA e obrigando
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e, à luz do conceito de analgesia balanceada, a internamento ou readmissões não previstas .
esta deve conseguir dois propósitos: A dor causa perturbações do sono (Strassels S,
1. Actuar nos três tempos do período periope- et al., 2002) e limita a mobilização precoce, fac-
ratório – antes, durante e após a interven- tores cruciais nos propósitos deste programa
ção cirúrgica. cirúrgico, onde se pretende um retorno rápido à
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2. Administração de fármacos que possam in- vida normal e ao trabalho .
tervir nos diferentes níveis do processo no-
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ciceptivo . Técnicas analgésicas em cirurgia de ambulatório
Na sequência do referido anteriormente a res- Não existem técnicas especificamente dese-
peito da analgesia balanceada ou multimodal, e nhadas para cirurgia de ambulatório. Existem
numa breve referência a fármacos, poder-se-á sim pressupostos a cumprir para que o termo
dizer que, de um modo sumário: ambulatório faça sentido, ou seja, as técnicas DOR
– Os AINE são reconhecidamente fármacos que analgésicas em cirurgia de ambulatório têm que
interferem na transdução a nível periférico . controlar a dor de um modo eficaz, seguro, sem 15
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