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A. Saraiva: Organização da Dor Aguda do Pós-Operatório
A elaboração dos protocolos deve reflectir o O tratamento da dor aguda não é um proces-
conceito de planeamento integrado, adoptar so estático, está sujeito a modificações em res-
metodologias de analgesia multimodal e eleger posta aos resultados das avaliações da eficácia
técnicas analgésicas preferenciais. e segurança.
Entenda-se por planeamento integrado o pro- Embora qualquer mudança por vezes seja um
cesso de integração do controlo da dor nos cui- processo moroso e não simplificado, pelo facto
dados perioperatórios dos doentes. Esta integra- do tratamento da dor aguda envolver várias
ção baseia-se na reconhecida vantagem da equipas de profissionais de saúde, ela deve ser
escolha de técnicas analgésicas que se possam iniciada logo que a avaliação dos dados assim
associar e/ou complementar nos períodos pré e o indique.
intra-operatório e que possibilitem a sua conti- Após análise e interpretação dos dados, sem-
nuação no período pós-operatório, promovendo pre que necessário os protocolos deverão ser
um adequado e eficaz alívio da dor aos doentes revistos de forma a melhorar os resultados na
operados. auditoria seguinte.
No protocolo deve ser referido: fármaco ou Como é referido no Plano Nacional de Saúde
mistura analgésica; método e via de administra- 2004-2010, é de toda a conveniência que perio-
ção; modo de preparação; posologia; analgési- dicamente as UDA promovam sessões de «con-
cos de resgate; normas de actuação perante trolo de qualidade» para revisão de protocolos,
efeitos secundários e instruções acessórias com sua eficácia e segurança e eventualmente pro-
as características dos fármacos. dução de recomendações no sentido de melho-
Os protocolos devem ser baseados em guide- rar a eficiência dos cuidados, das técnicas e
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lines, datados e regularmente revistos. dos fármacos .
Espaço físico Situação na Europa
As UDA como estrutura organizada, depen-
dente dos serviços de anestesiologia, que asse- Passada uma década, desde a organização da
guram programas de acção em todo o período primeira UDA, verifica-se pelos estudos publica-
perioperatório, não têm um espaço físico exclu- dos que muitos doentes ainda recebem analgesia
sivo. O espaço físico corresponde ao percurso de pós-operatório de forma inadequada.
do doente operado ao longo do qual decorre De acordo com os resultados do PATHOS
toda a acção do programa das UDA. (Postoperative Analgesic Therapy Observational
Condições fundamentais neste percurso são Survey – Inquérito Observacional da Terapêutica
as condições de segurança para o doente, com Analgésica Pós-Operatória), realizado para ava-
vigilância e monitorização adaptada à técnica liar as práticas de tratamento da dor pós-opera-
analgésica. tória (DPO), na actividade cirúrgica na Europa
Assim, o doente, após passar pela Unidade de em 2005 e para identificar as áreas que carecem
Cuidados Pós-Anestésicos (UCPA) onde recupe- de melhoria nas instituições de cuidados de saú-
ra as funções fisiológicas e controlo álgico, pode de, ainda existe um espaço considerável de me-
ser transferido para uma unidade de segundo lhoria no tratamento da DPO.
nível ou enfermaria de acordo com a técnica anal- O inquérito foi conduzido em sete países (Áus-
gésica utilizada. Sempre que a modalidade anal- tria, Bélgica, França, Alemanha, Portugal, Espa-
gésica seja analgesia epidural ou PCA, o doente nha e Suíça), inquirindo 1.558 anestesiologistas
deverá ir para uma unidade de segundo nível de e cirurgiões de 746 instituições.
cuidados, a qual deverá fazer parte do próprio Os resultados do inquérito revelaram:
serviço cirúrgico a que o doente se destina e terá – Treino do pessoal:
monitorização contínua de parâmetros vitais. • Para 34% dos inquiridos, não existe forma-
ção regular sobre o tratamento da DPO,
proporcionada na instituição onde traba-
Avaliação de resultados lham.
Como qualquer estrutura organizada, as UDA – Informação para o doente:
têm de ser avaliadas. É necessário avaliar pe- • Para 52% dos inquiridos, os doentes não
riodicamente o trabalho desenvolvido por toda a são sistematicamente informados antes da
equipa, analisando os resultados de qualidade do cirurgia, sobre o tratamento da DPO.
tratamento da dor aguda. – Protocolos:
Deve ser feita a análise da expectativa do • Para 75% dos inquiridos, não existem pro-
doente e grau de satisfação, do custo eficácia tocolos escritos para todos os doentes a
das técnicas analgésicas utilizadas (analgesia fazerem tratamento por DPO:
epidural, PCA, bloqueios periféricos), das com- • Para apenas 33% dos inquiridos, os proto-
plicações e dos efeitos secundários. colos escritos aplicam-se sempre na prática
Para que esta análise seja possível, é funda- diária, quando disponíveis.
mental o preenchimento diário e à cabeceira do — Avaliação da dor e follow-up: DOR
doente de um questionário que deve ser simples • Para 34% dos inquiridos, a DPO não é ava-
e não exaustivo. liada. 21

