Page 17 Volume 16 - N.1 - 2008
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efeitos secundários e permitir uma continuidade – Ensino dos doentes.
terapêutica fácil para o doente no domicílio. – Equipas multidisciplinares (médicos, enfer-
Para além da ênfase na analgesia multimodal, meiros, farmacêuticos).
merecem destaque as técnicas anestésicas lo- – Equipamentos específicos.
cais. Os potenciais benefícios das técnicas – Protocolos terapêuticos.
anestésicas locais usadas para analgesia intra – Registos específicos.
e pós-operatória são amplamente reconhecidos, – Avaliação de resultados .
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embora pouco utilizadas. Nestas técnicas, a De realçar o planeamento, a formação e o
acrescentar aos tradicionais bloqueios de ner- ensino, nomeadamente de médicos e enfermei-
vos periféricos, surgem (ou ressurgem) outras ros (mas também dos doentes), como aspectos
técnicas de particular relevo neste tipo de cirur- fundamentais para as Unidades de Dor Aguda
gia: a infiltração prévia do local de incisão assim que dependem grandemente da disponibilida-
como, posteriormente, da ferida cirúrgica; a per- de e coordenação dos recursos humanos exis-
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fusão contínua da ferida cirúrgica com anestési- tentes .
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co local ; assim como a administração intra- Indispensável também é a necessidade de
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articular ou intraperitoneal daquele fármaco . folhas de registo específicas, que permitam um
As técnicas anestésicas locais diminuem o con- critério de preenchimento uniforme e rigoroso,
sumo intra-operatório de anestésicos e analgési- com fácil recolha e interpretação de resultados,
cos, têm uma recuperação rápida e permitem a visando o processo dinâmico de aferição e adap-
mobilização precoce e alta mais rápida. Estas téc- tação dos protocolos analgésicos, assim como o
nicas são de execução simples, têm taxas de su- tratamento estatístico de dados para produção
cesso altas e incidência de complicações baixa . científica .
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Conclusões Tratamento da dor baseado na evidência
O controlo da dor em cirurgia de ambulatório Existe uma tendência crescente para praticar
coloca alguns problemas específicos para os a medicina baseada na evidência, particular-
clínicos. A tarefa mais importante é a de conseguir mente em relação à utilização de novos trata-
controlar a dor em níveis aceitáveis para o doente, mentos ou na elaboração de protocolos ou li-
assegurando, simultaneamente, padrões de segu- nhas de orientação.
rança e minimizando os efeitos secundários dessa A rápida generalização da avaliação por pa-
terapêutica analgésica. Para além deste objectivo, drões de qualidade e o crescimento explosivo
o controlo da dor nestes doentes deve, não só, do conhecimento científico (quer na investiga-
minimizá-la em repouso, mas também permitir ção, quer na aplicação clínica do controlo da
a mobilização a as funções motoras básicas. dor) levaram à necessidade lógica da elabora-
Em resumo, os doentes sujeitos a procedimen- ção de guidelines. Os primeiros a fazê-lo foram
tos cirúrgicos em cirurgia de ambulatório, reque- o National Health and Medical Research Council
rem uma técnica analgésica eficaz, com efeitos na Austrália e o Royal College of Anaesthesists
secundários mínimos, intrinsecamente segura e na Grã-Bretanha. O primeiro elaborou um docu-
facilmente seguida no domicílio. Neste âmbito, mento intitulado Acute Pain Management: Scien-
interessa também realçar a importância do diá- tific Evidence, cujas actualizações (última em
logo entre anestesistas e cirurgiões no esclare- Dezembro de 2007), continuam a ser uma refe-
cimento mútuo das respectivas técnicas a utili- rência neste tema do tratamento da dor baseado
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zar, de modo a trabalhar em conjunto num na evidência .
processo contínuo desde o pré-operatório até ao Surpreendentemente, poucos dos nossos pro-
período após a alta do hospital. cedimentos habituais se incluem no nível I de
evidência. A metanálise de dados tem sido fre-
Organização da analgesia no pós-operatório quentemente assumida como o gold standard
da evidência, embora o que actualmente se
Wheatley e Madej do York District Hospital sabe é que esse método deve ser também ele
afirmam, na publicação Acute Pain, que o prin- submetido ao mesmo grau de escrutínio que o
cipal obstáculo ao sucesso e desenvolvimento aplicado ao ensaio controlado e randomizado
no alívio da dor pós-operatória não tem sido uma (randomized controlled trial - CTR).
verdadeira falta de métodos analgésicos efica- Em suma, a «produção» de evidência científi-
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zes, mas sim de organização . Poderíamos ca no tratamento da dor aguda do pós-operató-
acrescentar também a falta de formação. rio obriga a uma maior exigência e rigor nos
Na prática, a organização da analgesia do registos, análise, interpretação e tratamento es-
pós-operatório traduz-se na criação de Unida- tatístico em todas as áreas de actividade profis-
des de Dor Aguda20 que, na realidade, consis- sional: prática clínica e académica, actualização
tem em programas de acção que incluem: e produção científica, registo, análise e trata-
– Recursos humanos próprios (não necessa- mento estatístico de dados. Todos estes objec-
DOR – Formação dos profissionais de saúde envol- tivos só poderão ser atingidos com uma boa orga-
riamente exclusivos).
nização da analgesia do pós-operatório, o mesmo
16 vidos. é dizer, uma boa Unidade de Dor Aguda.
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