Page 27 Volume 17 - N.1 - 2009
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palavras, as expectativas baseiam-se na evidên- e enfermeiras, com o tempo de espera para obter
cia e pressupõem um elemento de controlo, uma medida analgésica e com a forma como a
mesmo quando são negativas. Uma vez que sua dor foi abordada pelos profissionais de saúde
antecipam um certo nível de qualidade de de- que os assistiram. Pede também sugestões para
sempenho, ir simplesmente ao encontro da ex- melhorar a qualidade dos serviços.
pectativa não pressupõe que um paciente fique Mais tarde, a APS reviu os seus standards
altamente satisfeito. com base nas evidências clínicas e nos dados
No que respeita à dor pós-cirúrgica, os pa- de diversos estudos e relatórios entretanto pu-
cientes esperam ter dor no período que se se- blicados. Em consequência, o painel de espe-
gue à intervenção e olham para esta como uma cialistas que desenvolveu esta tarefa propôs
inevitabilidade, que não pode ser completamen- que fossem acrescentados seis itens ao POQ.
te resolvida. A dor é tolerada até um determina- Os novos itens derivaram do Brief Pain Inven-
do limiar, acima do qual, se não existirem pro- tory (BPI) e do Patient Barriers Questionnaire
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cedimentos terapêuticos para o seu controlo, os (BQ) e validam a intensidade média da dor
agravamentos serão evitados reduzindo os mo- nas 24 horas anteriores à avaliação, a tolerância
vimentos dolorosos. Acresce que as possibilida- à dor (medindo a interferência da dor no sono,
des antálgicas para atingir o desejável alívio da na actividade geral, na capacidade de deambu-
dor são desconhecidas para a maioria dos pa- lar e no humor), o nível de satisfação global com
cientes. Muitos, contudo, trazem a ideia precon- o tratamento da dor, as razões que subjazem à
cebida de que os analgésicos são lesivos para relutância em pedir medicação analgésica mais
vários órgãos, provocam efeitos secundários in- forte e as instruções dadas pelos profissionais
desejáveis e conduzem à dependência (sobre- de saúde para o controlo da dor no período pós-
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tudo os opióides) . alta. Nesta versão de 17 itens, a satisfação pas-
De uma forma simplista, poderíamos dizer que sou a ser avaliada numa escala de 0 a 10, ao
quando as expectativas de desempenho positi- invés de o ser numa escala tipo Likert.
vo são cumpridas teremos um paciente satisfei-
to, quando as expectativas de desempenho po-
sitivo são ultrapassadas teremos um paciente Problemas na avaliação com o APS-POQ
altamente satisfeito, quando as expectativas de e com outras medidas de natureza quantitativa
desempenho negativo são cumpridas teremos A versão original do POQ e diversas versões
um paciente insatisfeito e quando as expectati- modificadas (incluindo algumas desenvolvidas
vas de desempenho negativo são ultrapassadas com base numa única questão) têm sido ampla-
teremos um paciente altamente insatisfeito. mente utilizadas em estudos realizados neste
Face a várias experiências, sobretudo se ini- domínio e contínua a ser uma ferramenta de
ciais, os pacientes não têm expectativas claras, avaliação recomendada, mas a forma como es-
apenas esperanças. Esperanças de que os pro- tão construídos os seus itens e a sua organiza-
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fissionais sejam competentes, de que a respos- ção estrutural têm sido alvo de várias críticas ,
ta terapêutica seja rápida, de que as técnicas pelo que não deve ser utilizado como o único
não sejam desconfortáveis, de que o tratamento indicador da qualidade dos cuidados relaciona-
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seja eficaz, de que a estadia seja curta e de se dos com o controlo da dor .
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sentirem melhores . Apesar dos mais de 20 anos de investigação
no domínio da satisfação dos pacientes com o
Como se tem avaliado a satisfação controlo da dor, os vários instrumentos de ava-
liação que pretendem traduzir este conceito de
dos pacientes? forma quantitativa têm-se revelado inadequados,
A preocupação com a avaliação da satisfação muito provavelmente por questões de natureza
dos pacientes com o controlo da dor emergiu metodológica. Por exemplo, os modelos teóricos
nos anos 90, quando, em 1995, nas suas primei- actuais sobre esta matéria têm dado poucas
ras guidelines relativas ao controlo da dor aguda pistas sobre como medir a satisfação dos pa-
e da dor oncológica, o Quality Assurance Com- cientes neste domínio e observa-se uma tendên-
mittee da American Pain Society (APS) propôs a cia para utilizar itens pouco sensíveis e discrimi-
monitorização deste constructo para avaliar os nativos.
resultados da actividade assistencial. À data, A teoria mais utilizada para o efeito tem sido
indicou para o efeito o Patient Outcomes Ques- a «teoria da desconfirmação» , também referi-
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tionnaire (POQ) , com três itens destinados à da como «teoria das expectativas de desempe-
avaliação da satisfação dos pacientes com dor nho». Desenvolvida no campo da Psicologia
aguda do pós-operatório ou com dor oncológica. Social, tem sido amplamente referenciada em
Este questionário, constituído por 11 itens, estudos de satisfação dos consumidores. Neste
pede aos pacientes que avaliem a sua dor, que modelo, a satisfação é conceptualizada como a
validem a percentagem de alívio obtido com a diferença entre aquilo que um consumidor espe-
DOR medicação ou com outras abordagens destina- ra, à partida, receber e a sua percepção daqui-
das ao controlo da dor e o grau de satisfação
lo que está a receber no momento. Assim, se as
26 geral com os cuidados prestados por médicos expectativas do consumidor forem confirmadas,

