Page 37 Volume 17 - N.1 - 2009
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Dor (2010) 17
Uma proposta conceptual relacionadas quer com as características do(a)
Perante tal panorama, a tese que procuramos observador(a) (e.g., ser defensor de papéis tra-
defender é a de que, mais do que inconclusivos, dicionais de género), quer do alvo, neste caso
tais resultados poderão estar a apontar para a da pessoa com dor (e.g., ter comportamentos
natureza inerentemente contextual do fenómeno de dor genderizados, como por exemplo, chorar
em estudo. Quer isto dizer que a intensidade ou de dor) quer da situação clínica ou contextual
mesmo a presença de enviesamentos de sexo em que estes se encontram (e.g., apresentar
nos julgamentos e tratamentos da dor pode va- uma síndrome de dor com fortes conotações de
riar em função das circunstâncias nas quais tais género, como por exemplo, a fibromialgia).
julgamentos ocorrem. Neste sentido, mais do Em suma, se existem circunstâncias que po-
que a mera descrição de tais enviesamentos, dem activar as imagens estereotípicas de géne-
importa desenvolver esforços conceptuais e em- ro na memória de um(a) profissional de saúde,
píricos orientados para a sua compreensão, ex- aumentando a probabilidade de este(a) fazer um
plicação e eventual predição. Por outras pala- julgamento clínico com base em tal informação
vras, mais do que procurar resposta à questão estereotípica, outras podem atenuar a probabili-
«Será que existem enviesamentos de sexo nos dade de tal informação ser activada e aplicada
julgamentos de dor?» importa saber quais os na interpretação de experiências de dor. Neste
mecanismos cognitivos e motivacionais que ex- sentido, parece-nos fundamental a análise deta-
plicam a sua existência e quando é que pode- lhada de tais variáveis contextuais com poten-
mos prever a sua presença. cial moderador dos enviesamentos de sexo nos
No sentido de contribuir para a conceptualiza- julgamentos de dor.
ção da variabilidade dos enviesamentos de sexo
nos julgamentos de dor, desenvolvemos uma Objectivos e hipóteses
proposta teórica, tendo por base o «modelo de
género-em-contexto» de Deaux, et al. 15,16 , da qual Decorrendo de tal quadro conceptual, um dos
ressaltamos dois importantes pressupostos (para objectivos gerais deste trabalho foi o de explorar
uma análise mais detalhada da proposta con- a contextualidade dos enviesamentos de sexo
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ceptual ver Bernardes ). O primeiro pressuposto nos julgamentos de dor de profissionais de saú-
defende o papel activo de um(a) observador(a) de, mais especificamente de estudantes e profis-
(e.g., profissional de saúde) na construção do sionais da Enfermagem. De facto, embora os(as)
fenómeno em causa, através dos seus esquemas enfermeiros(as) não possuam a latitude de tomada
de decisão sobre diagnósticos e tratamentos

de género . Entende-se por esquemas de géne- habitualmente atribuída aos(às) médicos(as), o
ro as estruturas cognitivas que englobam conhe- seu papel central na relação com os(as) pacientes
cimentos socialmente adquiridos sobre os signi- e na provisão de cuidados de enfermagem, que
ficados de ser e agir enquanto homem ou mulher pode ir desde o apoio emocional ou instrumental
numa certa sociedade 3,27 . Os estereótipos de à administração técnica dos tratamentos pres-
género são um exemplo destas estruturas es- critos, torna relevante a análise do papel que
quemáticas. Tais estruturas cognitivas, quando tais profissionais poderão potencialmente de-
activadas em memória, são utilizadas para in- sempenhar na construção de iniquidades de
terpretar diversos eventos do dia-a-dia, nomea- sexo na provisão de cuidados de saúde. Assim,
damente as experiências de dor de homens e mais especificamente, procurámos explorar o pa-
mulheres, o que poderá justificar a presença de pel moderador de algumas variáveis relativas ao
enviesamentos de sexo. contexto que, ao contribuírem em maior ou menor
Contudo, e decorrente do segundo pressu- grau para a activação de esquemas de género,
posto, a activação e aplicação de tais esquemas intensificassem ou suprimissem a presença de
de género parece ser condicional, isto é, depen- enviesamentos de sexo nos julgamentos de dor
dente de pistas contextuais que podem estar em estudantes e profissionais da Enfermagem.
Neste sentido, são aqui resumidos alguns dos
resultados principais de dois estudos que visa-
ram analisar o efeito moderador de variáveis, cli-
nicamente relevantes, relativas ao(à) observador(a)
† Apesar de os termos «Sexo» e «Género» serem frequen- (sexo), à pessoa com dor (reacções de estoicismo
temente utilizados de forma intercambiável, defendemos face à dor) e à situação clínica (duração da
que a sua distinção conceptual é fundamental. Tal como
abordámos mais detalhadamente noutro artigo , entende- dor) nos enviesamentos de sexo nos julgamen-
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mos por «Sexo» um marcador biológico usado para tos de dor.
categorizar os seres humanos em homens e mulheres com No que diz respeito às hipóteses, e num nível
base em características físicas (e.g., hormonas, cromosso- de análise mais geral, esperava-se, que, à se-
mas, órgãos sexuais ou características sexuais secundá- melhança de estudos anteriores 1,14,26 , no caso
rias). Por sua vez, o conceito de «Género» engloba os da presença de um efeito significativo do sexo
DOR significados social e culturalmente construídos de se ser e do(a) paciente, a dor da mulher fosse subava-
agir enquanto homem ou mulher, numa determinada
liada comparativamente com a dor do homem
36 sociedade e época, isto é, refere-se às representações (hipótese 1). Contudo, e tendo em conta o quadro
mentais, sociais e culturais sobre as categorias sexuais.
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