Page 33 Volume 17 - N.1 - 2009
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Dor (2009) 17
observaram-se edema duro e difuso da mão e distal de um indivíduo geneticamente predispos-
do punho, pele seca, quente e vermelha. Apre- to inicia um processo que desencadeia um es-
sentava ainda alguma limitação na flexão e ex- tado de dor neuropática na extremidade afecta-
tensão dos dedos da mão, principalmente do da. Mecanismos de neuroplasticidade neuronal
dedo indicador, e dor à mobilização do mesmo. seriam responsáveis pela manutenção do qua-
Não se evidenciaram sinais de atrofia muscular dro, os quais poderiam ser convertidos na fase
ou óssea, cianose, hiper-hidrose, ou ainda des- precoce da doença. As teorias mais recentes
camação da pele. No seguimento da primeira descrevem a existência a nível periférico de si-
consulta, foi realizado um electromiograma napses «artificiais » ou «curto-circuitos neuroló-
(EMC) que não evidenciou lesão nervosa. gicos» entre o sistema nervoso simpático e so-
Manteve fisioterapia, iniciou estimulação eléc- mático, resultantes possivelmente de traumatismo.
trica transcutânea (TENS), pregabalina (em in- Essas sinapses seriam responsáveis pelo qua-
crementos semanais, até atingir 300 mg/dia), dro clínico: estímulos normalmente mediados
amitriptilina (em incrementos semanais, até atin- pelo sistema nervoso autónomo (SNA) são pro-
gir 25 mg/dia) e apoio psicológico. Apesar de cessados pelo sistema nervoso somático (SNS)
uma abordagem cuidadosa e pautada, a doente e produzem dor, enquanto estímulos habitual-
desenvolveu um quadro de cansaço, sonolência mente mediados pelo SNS são processados
e tonturas importante. Após quatro semanas de através de SNA e causam uma resposta simpá-
tratamento, a doente mantinha as queixas, ne- tica desorganizada.
gava melhoria dos sintomas e o exame objectivo As SDRC tipo I e tipo II têm sinais e sintomas
era sobreponível ao anterior. Devido à persistên- semelhantes. Quando os sintomas podem ser
cia do quadro clínico e por intolerância ao trata- atribuídos a uma lesão nervosa, fala-se em SDRC
mento farmacológico, foi colocado um cateter no II. Na ausência de identificação de tal lesão,
plexo braquial por via axilar. Procedeu-se à ad- fala-se de SDRC I (Quadro 1) . Sabe-se que, nos
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ministração em bolus de 35 ml de mistura de EUA, 2/3 dos casos de SDRC I resultam de trau-
ropivacaína 7,5 mg/ml (20 ml) e lidocaína 2% (20 matismo ou cirurgia. O diagnóstico é essencial-
ml), da qual resultou bloqueio motor completo mente clínico, baseado nos critérios já definidos.
do membro superior direito. Três horas após ad- Esta síndrome atinge uma faixa etária jovem (36-
ministração de anestésico local, notou-se re- 42 anos), e mais frequentemente o sexo femini-
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gressão do bloqueio motor, e iniciou-se perfusão no . Na nossa doente, o evento desencadeante
contínua com ropivacaína 2 mg/ml (2 ml/h) atra- pode ter sido o traumatismo, a cirurgia ou a
vés de bomba elastomérica (DIB), durante um imobilização da mão.
total de sete dias, em regime ambulatório. Du- O tratamento ideal da SDRC I ainda é espe-
rante esse período de tempo, manteve apoio culativo, no entanto, para ser eficaz deve ser
psicológico, fisioterapia e tratamento farmacoló- iniciado precocemente e ter uma abordagem
gico (com doses ajustadas). multidisciplinar baseada em três aspectos: rea-
Notou-se alívio imediato das queixas álgicas bilitação física, alívio da dor e, finalmente, psi-
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e melhoria progressiva da função motora e das coterapia . Cada tratamento deve ser individua-
alterações tróficas. Ao fim de uma semana, por lizado em função do doente e da sua situação
presença de sinais locais de inflamação e infec- clínica. Os melhores resultados obtêm-se apli-
ção, o cateter foi retirado, mantendo restante cando o tratamento em estádios iniciais da do-
tratamento. ença, pelo que é essencial o diagnóstico preco-
Após remoção do cateter, houve regressão de ce, assim como uma referenciação adequada
grande parte da sintomatologia com persistên- para uma correcta abordagem interdisciplinar. A
cia de dor ligeira a moderada, mas sem reapa- reabilitação através de fisioterapia é imprescin-
recimento das outras queixas. dível, não só como forma de prevenção, mas
também de tratamento precoce de complica-
ções da SDRC I. As técnicas de reabilitação
Discussão variam em função dos sinais e sintomas predo-
A SDRC é uma entidade clínica caracterizada minantes, sendo que nos estádios mais iniciais
por dor contínua habitualmente resultante de le- visam o alívio da dor e edema, com exercícios
são ou de estímulo nóxico. A sua fisiopatologia musculares isométricos, para atrasar a disfun-
está ainda pouco esclarecida, no entanto, sabe- ção motora. O apoio psicológico nestes casos é
se que se mantém uma actividade neuronal fundamental, devendo-se tratar a síndrome de
constante anormal que afecta todo o sistema stress pós-traumático, a quinesofobia (medo
nervoso. São várias as hipóteses acerca dos de realizar certos movimentos por causa da
mecanismos fisiopatológicos envolvidos, nomea- dor) e ainda, abordar a ansiedade e depres-
damente predisposição genética, resposta infla- são. A complexidade desta síndrome e a va-
matória exagerada com envolvimento de radicais riedade de sinais e sintomas que a caracteri-
livres, inflamação neurogénica, sistema simpáti- zam obrigam a que desde o início seja instituído
DOR co disfuncionante, sensibilização periférica e um tratamento farmacológico que visa ao con-
disfunção do processamento central. Parece
trolo da dor, da depressão e ansiedade próprias
32 que uma lesão traumática numa extremidade da dor crónica, das alterações vasomotoras, e
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