Page 21 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Cristina Catana: Pensar a dor...
humano. As unidades de dor são a expressão O quê.
deste lugar. Um quem.
Atrevo-me a dizer que as unidades de dor Como se relaciona com o seu médico.
resgataram a pessoa humana na medicina, Como se relaciona com a sua enfermidade.
integrando a doença na identidade do sujeito, Na Unidade de Dor do HGO, o fenómeno
com a sua história pessoal. dor já não se encontra enclausurada numa ló-
A linguagem do paciente, mesmo a não–ver- gica estritamente mecanicista, ela integra-se no
bal, o grito e o silêncio são ouvidos. Pode-se pensamento mais próximo de Melzack e Wall,
falar de dor mesmo daquela que Chico Buar- concebendo a dor num contexto de grande
que nos canta: “A dor da gente não vem nos complexidade, cujas percepções, memórias,
jornais”, como nos faz lembrar o psicanalista cognições, crenças, interferem e modulam.
Carlos Amaral Dias. O espaço psicoterapêutico individual e o
O aspecto de descontinuidade é fulcral na psicodrama de grupo, na Unidade de Dor do
dor crónica, o que se descose, o que se rasga HGO, visam um lugar potenciador de descober-
na vida somática, psíquica, afectiva e social. tas, do encontro com a verdade psíquica e sua
Rasga-se, por vezes, a continuidade da pele expansão na vida da pessoa. Através da relação
psíquica, desmoronam-se as defesas egóicas, terapêutica cria-se uma espécie de continente,
caiem projectos. de invólucro para uma experiência solitária e
Este caos mesmo que silencioso emerge sob dores sem nome transformando-as, criando-se,
a forma de dor. A vida parece ter dois tempos: assim, para estas uma melhor tolerância para a
o tempo antes da dor e o tempo depois da dor. sua insuportabilidade.
O que se era e o que se passou a ser, ou pior, Uma paciente de 53 anos, a que vou dar o
o que se deixou de ser. nome de Maria, dizia-me na sua terceira sessão:
Numa unidade de dor tem-se em conta a du- “para mim esta unidade representa uma coisa
pla dor: a dor do corpo e a dor da alma. Não se boa, é saber que existe um lugar específico
trata de uma dor, trata-se das várias dores que para as minhas dores, posso falar delas, e pos-
se acoplam umas às outras, das que se falam e so deixar de estar sózinha com elas... isso para
das que não se falam. mim já conta... dor com solidão é horrível”.
Esta mulher, na sua primeira consulta, apa-
Psicologia na unidade de dor HGO rece-nos muito curvada e escondida sobre e
dentro de si. A sua timidez e a sua dificuldade
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. em reconhecer o direito a um lugar seu, atribuía
Quanto quis, quanto não quis, tudo me forma. ao seu olhar espanto e susto. Diz-nos que é a 4ª
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma de uma fratria de 5. Até aos oito anos de idade
saudade em mim. conviveu com os pais juntos. A mãe é recordada
Álvaro de Campos, Poesias como uma boa mulher, sofrida e doente, faleceu-
lhe há três anos. O pai, já faleceu há 30 anos,
Ao longo da minha experiência, na Unidade era um homem alcoólico, violento, assustador.
de Dor do HGO tenho reflectido sobre a relação Os pais separam-se quando tinha 8 anos e até
do corpo com o pensamento. lá conviveu com a violência doméstica. Sempre
Esta experiência afirma e confirma que a con- cresceu, sem ser menina. Tinha que trabalhar e
dição humana é antes de tudo uma condição fazer pela vida. Trabalha no seu cabeleireiro mo-
corporal, e o corpo é sempre pessoa, ainda que desto, improvisado na sua própria casa. Casa-se
se o negue ou que se o esqueça. O corpo desde e tem três filhos, duas raparigas e 1 rapaz.
a sua génese é um comunicador. Se não é verbo, Sem perceber porquê, o marido sai de casa
potencialmente, convida-se a sê-lo. Ele carrega e vai viver com outra pessoa. Deprime-se, mas
cifras, memórias, afectos. O corpo é gregário mas na altura tem que lutar pelos filhos, restando-lhe
também é singular. É espaço e tempo. O corpo é a pouca disponibilidade para viver a dor da per-
base da nossa identidade, é o nosso rosto. da. Adoece. O seu corpo altera-se com a toma
O paciente com dor não deixa de ser dois da cortizona, engorda cerca de 20 kg, e algum
sujeitos: aquele antes de adoecer, a pessoa sau- tempo depois emagreceu-os. O seu corpo afigu-
dável, e a outra parte de si, a pessoa adoecida. ra-se-lhe como estranho e castrador. Vive num
Cabe então não só oferecer o bálsamo para as colete de forças de dor e de rigidez.
suas dores, como um espaço de liberdade criati- Há três anos, perde a mãe, casa dois filhos,
vo banhado de afecto, para se reenviar a pessoa muda de casa para uma outra mais pequena e
a si própria. é-lhe diagnosticada a doença de fibromialgia.
O primeiro contacto passa pela avaliação e Durante as primeiras duas consultas tento
auscultação do seu pedido de ajuda: acolher identificar os marcadores do sofrimento e o
e intervir. padrão do seu funcionamento psíquico. O sofri-
Impera perceber como a pessoa se relaciona mento traumático infantil, as perdas, a doença, a
DOR consigo própria e com o outro, como se relacio- par de um constante fundo depressivo afundam DOR
na com a sua doença e com o seu médico; só
a paciente num desespero melancólico e des-
20 assim teremos: amparo silenciosos. 21

