Page 16 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Paulo Moita: A dor existe - Preconceitos sobre a dor
presença de ansiedade ou depressão, ou seja, de facto pode estar a doer da forma que ele
se estas últimas forem aliviadas não significa diz que dói.
que a dor vai desaparecer. Segundo McCaffery, ganho secundário é
Se a ansiedade e a depressão forem moti- definido como “qualquer vantagem prática ou
vadas pela dor, o tratamento adequado passa emocional que resulte da existência de dor,
pelo alívio da dor com analgésicos e não pela especialmente compensação financeira e tra-
utilização de tranquilizantes ou sedativos. tamento preferencial na casa ou no trabalho,
Para compreender esta dicotomia problema incluindo atenção e favores especiais por parte
psicológico / problema físico como desenca- dos amigos e da família”. (McCaffery, p. 10.)
deante da dor, sugere-se também que se pro- Este doente não é um simulador porque a dor
cure estabelecer uma diferença entre hábitos existe e o benefício secundário pode ser uma
aditivos com opióides e utilização de opióides componente muito comum numa experiência de
para alívio da dor. dor prolongada.
Se a um politraumatizado entrado na urgência Pode acontecer um exagero da dor mas pode
forem prescritos opióides para o alívio das do- dever-se a dificuldades em lidar com o proble-
res resultantes das lacerações e fracturas que ma de dor ou apenas uma maneira de levar os
apresenta, ninguém coloca em causa a sua outros a acreditar na sua dor, à qual ninguém
necessidade. Contudo, umas semanas depois, anteriormente prestou atenção, de modo a obter
na enfermaria onde se encontra a recuperar, o tratamento apropriado.
pedido de opióides para alívio das dores mus- Benefício secundário pode não ser negativo,
culoesqueléticas que provavelmente ainda tem, como no caso de obter uma compensação mo-
e que podem estar acompanhadas de ansieda- netária devido a um acidente de trabalho.
de e depressão, pode ser interpretado como Benefício secundário é uma situação muito
utilização dos opióides por uma necessidade comum na vida diária, como, por exemplo, evi-
psicológica. tar um convite para jantar porque se tem dor.
“É necessário compreender que a dor é, em Contudo se esta se tornar na forma habitual de
primeiro lugar, um problema físico com efeitos resolver os problemas, torna-se numa incapa-
psicológicos…” (McCaffery, p. 9) para não cidade e necessita tratamento, pois leva a um
corrermos o risco de rotular os doentes como crescente aumento do isolamento e perde a ap-
tendo hábitos aditivos. tidão para lidar com os problemas diários, como,
Os rótulos, depois de colocados por alguém, por exemplo, evitar melhorar as suas condições
quase ninguém consegue ou está interessado de trabalho, preferindo ficar em casa ou evitar
em retirar. sistematicamente resolver conflitos conjugais
4 – Preconceito – Mentir sobre a existência de dizendo que precisa de descansar.
dor, simular que tem dor, é uma situação muito Um diagnóstico correcto de benefício secun-
frequente. dário passa não só por não colocar em questão
*Poucas pessoas que dizem que têm dor estão a presença de dor mas por reconhecer que
a mentir e vários estudos comprovam esse facto. alguns comportamentos não significam tentar
Existem obviamente simuladores mas são muito obter essas vantagens, pois o que é benefício
menos do que nós acreditamos existirem. secundário para uns não o é para outros.
Vamos entender por simulador “aquele doente Segundo McCaffery, uma observação sis-
que diz que tem dor, quando de facto ela não temática sobre se uma pessoa regularmente
está presente, de modo a evitar ou a ganhar usa a sua dor para evitar actividades que não
algo”. (McCaffery, p. 10.) gosta de executar, mesmo quando não tem dor,
Este medo de ser enganado por um doente ou para obter benefícios que não teria se não
simulador incomoda os enfermeiros e tentaram- existisse essa dor, pode ajudar a estabelecer
se levar a efeito testes para contornar este pro- esse diagnóstico, o que não é fácil. (McCaffery,
blema, mas que não se mostraram eficazes. p. 11.)
Temos, portanto, de aceitar a realidade de que 6 – Preconceito – Toda a dor real tem uma
acreditar no doente que tem dor pode resultar em causa física identificável.
acreditar em alguém que está deliberadamente a *Toda a dor é real independentemente da sua
mentir. E esta vulnerabilidade parece inevitável. causa. Todas as dores têm uma componente físi-
É necessário evitar a todo o custo “catalogar” ca e uma componente mental e a não evidência
doentes como simuladores, só porque não se da primeira não significa que a dor é de cariz
encontra uma aparente causa para a dor ou por- psicogénica.
que não responde ao tratamento instituído, pois É mais fácil acreditar nas queixas de um do-
podemos estar a cometer um grande erro. ente quando existe um diagnóstico físico que
5 – Preconceito – O doente que tem benefícios corresponde com o que ele diz, isto é, conti-
ou tratamento preferencial devido à sua dor está nuamos a confiar mais na patologia do que nas
a procurar obter ganhos secundários e não tem declarações sobre como o doente se sente.
DOR dor ou exagera a dor que sente. problemas de dor do doente baseadas na se- DOR
As equipas de saúde normalmente avaliam os
*Este tipo de doente que usa a dor de modo
14 a obter vantagens não é igual ao simulador, e guinte ideia expressa por McCaffery: “Se há dor, 15
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