Page 20 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Cristina Catana: Pensar a dor...
Pensar a dor...
Cristina Catana
Introdução própria. No seu limite, a pessoa pode-se des-
Tenho uma grande constipação, personalizar, e questionar como Hamlet “Que
E toda a gente sabe como as grandes cons- identidade é a minha? Quem sou eu? Existirei
tipações eu?”, chegando a considerar a vida e o seu
Alteram todo o sistema do universo, corpo como inimigos persecutórios.
Zangam-nos contra a vida, Na vivência da dor crónica, o corpo, soma,
e fazem espirrar até à metafísica. tende ser uma espécie de túmulo, sema. Recor-
Álvaro de Campos, Poesias. de-se que para os pitagóricos soma significava
corpo e sema túmulo. O corpo vivo - o corpo li-
É lugar comum pensar-se que a dor sempre bidinal - retira-se, ficando desamparado na falta:
coexistiu com o próprio homem no seu devir. Na na falta de palavras, na falta de significado e na
procura do seu sentido e da sua transformação, falta do lugar para o gozo. Da vida e da con-
o homem tem-se interrogado sobre si e sobre quista corre-se o risco para a perda, para a
o seu lugar no mundo e no universo, criando perda de autonomia, da autoconfiança, para
visões religiosas místicas, emergindo-se a arte, a perda das relações amorosas. Corre-se o
a ciência, a poesia, etc. risco de se perder o corpo para ser sonhado
A dor, a doença, a luta contra a morte e o e desejado.
seu confronto, deram lugar à medicina, e esta Manuela Fleming cita, no seu livro A dor sem
foi criada para a pessoa que padece das suas nome, o filósofo Salvatore Natoli (1999): “a dor
precariedades física e psíquica, onde a dor foge ao discurso”. Reforçando esta ideia com a
quase sempre está: onde se vive os limites de Marguerite Duras em La douleur: “é sofrimento
quem dá - o profissional de saúde - e de quem por todo o lado... é por isso que o pensamento
recebe – o doente -. está impedido de fazer-se, ele não participa no
Na dimensão do pathos, do que se interroga o caos mas é constantemente suplantado por
homem quando assolado pelas dores? Do senti- esse caos, sem meios, face a ele”.
do da sua dor? Da sua justiça? Mas que sentido Dizia-me uma paciente: “Tenho pouco mais
e que justiça existem nas dores inúteis? de 30 anos, e o meu corpo já não responde
A psicanalista Manuela Fleming, no seu livro aos meus desejos: o desejo de conduzir o meu
A dor sem nome, relembra que “segundo a carro, o desejo de pegar os meus filhos ao colo,
Bíblia, a dor, a doença e o mal em geral são o desejo de dançar, o desejo de ser mulher... e
consequência da expulsão de Adão e Eva do acho que já não sou capaz.”
paraíso em resultado da infracção das leis A dor é mais do que afectos penosos e
divinas e marcam a ruptura entre o homem sensações desagradáveis. Ela é multifactorial,
e o divino... A dor fica enredada numa teia cruzada numa tripla pertença: biológica antro-
de significações ligadas à falta, ao pecado e pológica e psicológica. Ela afecta a existência
punição”. da pessoa na sua globalidade.
Penso que a dor tem-se ligado à ideia de cas- Se é verdade que a perspectiva religiosa
tigo, à ideia de infracção, à ideia do bem e do tem remetido a dor para a expiação dos
mal, do homem justo e do homem injusto. E se males e dos pecados, podendo induzir para
fizermos uma revisão na história mítica, ressalta um misticismo do negativo, a medicina, pelo
a tentação do homem tocar o divino na busca contrário, reconhece o direito da pessoa
da imortalidade. adoecida ser tratada e gozar de boa saúde,
Este mito colectivo, relativo à culpa e casti- como, também, reivindicar o direito ao prazer
go, torna-se presente, mesmo naquele que se e à satisfação.
pensa ateu, aquando adoecido e se interroga: Reconhecer a especificidade da dor, na
Porquê eu? Que mal fiz eu a Deus? medicina, este 5º sinal vital, é também fazer
A dor inútil torna a vida bizarra e hostil. Faz o reconhecimento da necessidade de se criar
cerco, isola e retira a pessoa dos outros e de si um lugar próprio, onde se possa escutar, ava-
liar, aliviar, tocar, conter e cuidar, o sofrimento
para o qual existem poucas palavras, pouca DOR
Psicóloga Clínica da Unidade linguagem, pouco tempo, para uma expe-
de Dor do Hospital Garcia de Orta, Almada riência singular, solitária e desamparada do 19

