Page 18 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Paulo Moita: A dor existe - Preconceitos sobre a dor
Varia também com os valores, se no meio Controlo farmacológico da dor:
onde a pessoa viveu lhe incutiram ideias de preconceitos sobre a utilização de opióides
suportar o sofrimento “heroicamente”. (Schowb,
pp. 103-110.) O controlo farmacológico da dor é da respon-
A combinação intensidade/duração pode ser sabilidade de toda a equipa de saúde incluindo
variável. Uma pessoa pode suportar uma dor o próprio doente. “O objectivo é manter o melhor
“média” durante muito tempo, e suportar uma controlo possível da dor com o mínimo possível
dor forte por um período substancialmente mais de efeitos secundários.” (Lubkin, p. 149.)
curto. A necessidade de utilizar opióides é evidente,
Pessoas com experiência de dor prolongada mas a “subutilização” destes medicamentos no
tendem a baixar o seu limiar de tolerância à dor. controlo da dor continua a ser, infelizmente, uma
Para McCaffery (p. 15), se por norma costuma política dos cuidados de saúde.
ter alívio rápido e adequado da sua dor, pode Vários estudos (Lubkin, p. 145) comprovaram
mostrar-se confiante na gestão da dor e capaz erros muito comuns relativamente à utilização
de aprender a usar métodos de alívio não inva- deste grupo de analgésicos:
sivos. – Prescrições incorrectas quer utilizando do-
Contudo, se costuma ser difícil obter alívio ses inferiores às recomendadas quer com inter-
para a sua dor e sabe como ela se pode tornar valos entre as doses maiores do que a efectiva
intensa, provavelmente enfrenta cada novo pe- duração da acção do fármaco.
ríodo de dor com medo crescente, depressão e – Enfermeiros com tendência para adminis-
menos recursos para suportar a dor. trar a medicação analgésica de forma inco-
É necessário não confundir intensidade da dor rrecta, aumentando os intervalos permitidos
com tolerância à dor. Se pedirmos a dois doen- ou administrando doses inferiores aos mínimos
tes que com uma escala de 0-10 identifiquem prescritos.
o grau da sua dor e a resposta for 4 nos dois – A medicação não é administrada correcta-
casos, não quer dizer que têm a mesma dor e mente pelo que o alívio não é feito de forma
necessitam de alívio igual. Um pode achar a dor contínua ou adequada.
perfeitamente tolerável e o outro insuportável. – Alguns doentes recusam os medicamentos
10 – Preconceito – Quando um doente diz ter que lhes são oferecidos ou não pedem medi-
ficado aliviado depois de um placebo quer dizer cação.
que o doente é um simulador ou que a dor está O grande receio decorrente da utilização dos
apenas na sua cabeça. opióides é o de desenvolver nos doentes hábitos
*Não há nada que justifique a utilização de aditivos, definido como “um desejo intenso de ob-
placebos para determinar se existe ou não dor, ter e utilizar uma droga pelos seus efeitos psíqui-
ou se esta é de origem física ou psicológica. cos e não por razões médicas”. (Lubkin, p. 146.)
Segundo McCaffery (p. 16) placebo pode ser Este receio é fundamentado na observação de
definido como “um qualquer tratamento médico alguns comportamentos dos doentes, que são
(medicação ou procedimento, incluindo cirurgia) interpretados como indicadores de desenvolvi-
ou cuidado de enfermagem que produz um efei- mento de hábitos aditivos.
to num doente devido à intenção implícita ou Segundo Lubkin esses comportamentos são:
explícita com que foi realizado e não devido à – Uso prolongado de opióides. Algumas do-
sua natureza ou propriedades terapêuticas (físi- res mantêm-se e duram mais do que o tempo
cas ou químicas). Quando um doente responde esperado, mas a manutenção do uso dos opiói-
a um placebo … diz-se que tem uma resposta des durante algum tempo não parece aumentar
placebo positiva”. o perigo de desenvolver hábitos aditivos.
Segundo McCaffery, a única conclusão que – Doente que está sempre a olhar para o reló-
se pode tirar é de que ela quer aliviar a sua dor gio. Isto normalmente resulta de um inadequado
e de que confia em algo ou alguém para obter alívio da dor. Alguns opióides são de duração
esse alívio. curta e alguns doentes metabolizam rapida-
Utilizar placebos desta maneira implica que o mente os opióides. A dor regressa antes de ter
enfermeiro minta sobre o medicamento que está terminado o intervalo entre as doses.
a oferecer ao doente e isto mina a confiança do – Doente que prefere a agulha em relação ao
doente na equipa de saúde. comprimido. Isto resulta da não utilização de
“Não é ético mentir para o cliente, e os place- doses equianalgésicas quando se muda a via
bos são uma mentira.” (Black, p. 338.) de administração de i.m. para p.o., pelo que as
Os placebos também podem provocar um concentrações do medicamento ficam abaixo
efeito analgésico devido ao aumento de endorfi- das necessárias para proporcionar o alívio das
nas como uma investigação de Greevert (1983), dores. A dose i.m. de uma medicação é 2 a 6
citado por Lubkin (p. 146), mostrou. vezes mais eficaz do que a mesma dose p.o.
Os placebos são importantes e apropriados – O doente gosta da sua “morfina”. Porque
DOR em investigação mas devemos sempre obter o não? Se uma pessoa está com dores, ficará DOR
provavelmente muito contente por ver chegar a
consentimento informado do doente para a sua
16 utilização. hora de ser aliviado. 17

