Page 22 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Cristina Catana: Pensar a dor...





















Figura 1. Figura 2.




Peço à paciente para dar um nome às suas timidez e melancolia. A tensão interior também
dores, inibe-se, inicialmente, e não consegue é revelada pela repetição de linhas.
fazê-lo. Pergunto-lhe, no seu entender, o que Peço-lhe para desenhar a dor (Fig. 2). A
poderá modular a dor, ela responde-me “as paciente desenha uma espécie dum gradiente
aflições e o nervosismo fazem aumentar-me a da dor, através de uma sequência de cores em
dor...”. forma cilíndrica. Então diz-nos:
Na sessão seguinte, utilizo a prova do des- “A parte azul representa a minha dor de já não
enho da figura humana (Fig. 1), prova esta que puder fazer o almoço dos domingos e reunir os
revela a imagem do corpo e onde facilmente se meus filhos.
projectam os desejos mais profundos e os as- A parte vermelha é a minha dor de ir à casa
pectos mais inconscientes da personalidade. deles e estar dependente deles.
Ao fim de desenhar a figura humana, peço-lhe A parte cinzenta é a mais triste. É quando os
para falar do seu desenho. meus filhos não podem almoçar comigo.
Diz-me “parece um anão... talvez a minha A parte castanha é quando as dores são in-
mãe quando estava a morrer... parece uma suportáveis.
criança”. A parte verde é quando estou com a minha
Pergunto-lhe porque desenhou uma mãe-me- neta, é a felicidade.
nina, uma mãe-anão, responde-me que fora ela, A parte castanha é outra vez as dores físicas
Maria, que a tratou até morrer, e na altura era insuportáveis.”
assim que a via. Foram as consequências de O que se pretende com esta paciente é que
um AVC que a vitimou. comece a nomear pela palavra as suas dores
Maria alimentava a esperança de que, com física e psíquica, ali, na relação psicoterapêutica
a saída de casa dos filhos, pudesse viver e comigo, de forma que as suas dores sejam con-
cuidar da sua mãe, e acompanharem-se uma tidas e transformadas em novos sentidos.
à outra, iludindo a solidão, iludindo o sofrimento Pretende-se que elabore e transforme as suas
do “ninho vazio”. angústias do abandono e da rejeição. Preten-
Toda vida desta mulher se organizou no papel de-se suturar a sua pele psíquica rasgada em
maternal na relação com os outros, agora, com faltas, recriando uma Maria mais genuína e livre
a sua fragilidade limitadora, não sabe viver outra de pensar e de viver.
coisa. Resta-lhe estar doente.
O desenho remete para inibição afectiva, com
retraimento do seu “eu”, fruto de um sentimento Indiquei-lhe o psicodrama
de insegurança e de dependência. Na sessão do psicodrama, onde participam
A sua feminilidade surge castrada, apagada várias pacientes com dor crónica, a temática
nos aspectos regressivos e na condensação da dor centrou-se na nomeação e expulsão
entre o infantil e o ser-se velha, com forte iden- das dores inúteis para um inferno imaginário. A
tificação à sua mãe perdida. Denunciando, tam- Drª Ana representava a guardiã desse inferno e
bém, um luto ainda em aberto, podendo cair no estimulava as pacientes a verbalizar os afectos
luto de natureza patológica. e vivências agressivos associados à dor. Maria,
O olhar vazio do desenho da figura humana apesar de se mostrar divertida ao ver os outros
DOR faz-nos pensar na sua dificuldade em comu- elementos do grupo expulsar as dores com no- DOR
mes, menos politicamente correctos, ela própria
nicar, comunicar o seu pensamento e os seus
20 afectos, reforçando os traços da introversão, não conseguiu expressar no jogo a sua agressi- 21
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