Page 24 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Maria Madalena Martins e Maria Graça Travanca: A caminho do cuidar em enfermagem… Um outro olhar à pessoa com dor

A caminho do cuidar em


enfermagem…

… Um outro olhar à pessoa com dor



Maria Madalena Martins e Maria Graça Travanca 2
1







Sumário

Este artigo descreve um projecto de parceria entre os serviços de Cirurgia II e Unidade de Dor do Hos-
pital Garcia de Orta e a Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende, de matriz formação/
investigação/acção que decorreu entre Junho de 2000 e Junho 2002.
Teve como objectivo melhorar e avaliar a prática dos cuidados de enfermagem aos doentes com dor no
Serviço de Cirurgia II.
A metodologia alicerça-se nos seguintes princípios pedagógicos: reflexão sobre a prática, o saber da ex-
periência, a monitorização sistemática do processo de transformação das práticas, a neutralidade activa dos
responsáveis do projecto face ao poder que atribuem e reconhecem ao grupo de enfermeiros do serviço.
Os resultados obtidos na prática de cuidados de enfermagem foram: os doentes estão mais analgesia-
dos e a dor do doente passou a ter mais valor para os enfermeiros.
A melhoria na prática de cuidados deve-se ao estar mais tempo com os doentes, a conhecer melhor e
a acreditar na unicidade da cada pessoa. A verdade do doente é que determina a decisão do enfer-
meiro, e os enfermeiros descobriram a necessidade de tornar o doente um parceiro dos cuidados.
A avaliação e registo sistemático das características da dor revelaram-se um meio de comunicação
interdisciplinar que garante a ajuda eficaz ao doente com dor.

Palavras chave: Dor aguda, VAS (visual analogue scale), cuidado de enfermagem, formação em contexto
de trabalho.





Introdução a singularidade existente na pessoa que tem que
O problema da dor é, sem dúvida, um dos cuidar. Remete-nos também para uma interdis-
grandes desafios que se coloca à pessoa que a ciplinaridade no mínimo, difícil de realizar na
sente e aos que, estando em contacto com ela, prática diária dos serviços de internamento nas
tentam minimizar os efeitos “desagradáveis” nossas instituições, com algumas particularida-
da dor. É uma experiência que se inscreve na des nas unidades de internamento de cirurgia.
nossa história humana desde cedo e que de Não é abusiva a afirmação que fazemos
forma marcante induz o nosso comportamento pois subscreve a realidade da dor do doente
face à dor, tornando esta experiência única e no pós-operatório revelada nos vários estudos
singular. efectuados por vários países. Assim, Gouyou e
No hospital a dor encerra uma problemática de Vidal (1998) dão a conhecer o resultado do seu
resolução complexa, se pensarmos que necessi- estudo em que 62% dos doentes verbalizaram
ta ser abordada tendo em conta a unicidade da sentir dor forte a muito forte em pós-operatório, e
pessoa que a sente, mas sem esquecer também dados oficiais dos hospitais de Paris revelavam
que 46,4% dos doentes sofriam de dor no pós-
operatório. Mac Lellan (1997), apoiada em diver-
sos estudos (Cohen, 1980; Weis, et al., 1983; Do-
1 Enfermeira Graduada. novan, et al., 1987; Melzack, et al., 1987; Kuhn,
Responsável pela formação em Serviço Cirurgia II et al., 1990; Owen, et al., 1990; Wilder-Smith e
Hospital Garcia de Orta
2 Enfermeira Graduada com funções de estomoterapeuta. Schuler, 1992), refere que os doentes a seguir DOR
Serviço Cirurgia II à cirurgia continuam a sofrer de dor moderada
Hospital Garcia de Orta, Almada a grave. 23
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