Page 17 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Paulo Moita: A dor existe - Preconceitos sobre a dor
há uma causa. Se há uma causa ela pode ser a torna mais suportável, este doente vai ser
identificada. Se não encontramos a causa, não mal interpretado.” (McCaffery, p. 14.) Agora
há dor e, portanto, não é preciso medicação para que a distracção parou, a sua dor torna-se
aliviar o que não existe.” (McCaffery, p. 11.) novamente no centro da sua atenção, difícil
Será talvez mais fácil se pensarmos que de tolerar, e está cansado. O doente precisa
provavelmente nunca encontraremos uma dor agora de outra forma de aliviar a dor para
motivada apenas por um estímulo mental ou descansar, e portanto pede o analgésico.
uma dor puramente estímulo físico, mas muito Se aderirmos ao modelo da dor aguda pen-
provavelmente uma resposta total (física e men- saremos que o doente não se comporta como
tal) do corpo. se tivesse dores, mas McCaffery diz-nos que
7 – Preconceito – Sinais visíveis, fisiológicos deveríamos antes colocar a pergunta: “Como
ou comportamentais, acompanham a dor e po- é que esta pessoa teria de se comportar para
dem ser usados para verificar a sua existência acreditarmos que tem dores?”
ou gravidade. Pensaremos que rir não é um comportamento
*A falta de sinais de dor não pode ser enten- apropriado, se alguém sorrir quando pede opiói-
dida como inexistência de dor. des ninguém acreditará que tem dores. É mais
Como é que o doente se deve comportar para apropriado chorar, mostrar uma fácies carrega-
que acreditemos que tem dor? da, deitar-se e adoptar a posição fetal.
No modelo de dor aguda alguns sinais exis- Duvidando do doente, levando-o a compor-
tem no início de uma dor súbita e forte. Fisiologi- tar-se “como se estivesse com dor” estamos a
camente pode existir aumento do ritmo cardíaco, promover a incapacidade.
aumento da pressão arterial, aumento do ritmo 8 – Preconceito – Estímulos físicos compa-
respiratório, transpiração, palidez, pupilas dilata- ráveis produzem dor comparável em pessoas
das, enquanto comportamentalmente pode falar diferentes. A gravidade e duração da dor podem
sobre a dor, chorar, gemer, ter os músculos ten- ser previstas com rigor para todos, com base no
sos, esfrega a parte do corpo que lhe dói, faz estímulo doloroso.
caretas ou franze as sobrancelhas. *“Não há nenhuma relação directa entre qual-
Contudo, estes sinais podem desaparecer quer estímulo e a percepção de dor.” (McCa-
pelo menos durante alguns períodos devido a ffery, p. 14.)
uma adaptação física e comportamental. É tentador pensar que podemos predizer a
Fisiologicamente, o corpo procura o equilíbrio gravidade e duração da dor porque gostamos
embora não possamos esquecer que uma dor de saber o que podemos esperar.
grave aguda pode levar a um estado de choque. O facto de que a dor varia consideravelmente
A nível do comportamento também existe uma em intensidade e duração em indivíduos sujei-
adaptação decorrido algum tempo após o início tos a estímulos semelhantes pode ser apreciado
do estímulo, minimizando as expressões de dor numa revisão das teorias sobre dor mais corren-
por diversas razões: tes, como a teoria do Portão de Melzack ou a
– Ser um bom doente – o doente pensa que existência de endorfinas.
a equipa de saúde é responsável por o São, portanto, variados os factores que in-
manter calado e de que não gostam de ver fluenciam a chegada do estímulo à consciência
chorar ou pedir alívio. ou se este é sentido como doloroso.
– Não ser “maricas” – se os valores do doen- 9 – Preconceito – Pessoas com dor devem ser
te, ou de quem está à sua volta, põem tó- ensinadas a ter um nível elevado de tolerância à
nica numa resposta de coragem e bravura dor. Quanto mais prolongada é a dor ou maior a
para enfrentar a dor, pode sentir-se pouco experiência que a pessoa tem de dor, melhor é
confortável por expressar a sua dor e, por- a sua tolerância à dor.
tanto, reprime-a. *Tolerância à dor é uma resposta individual va-
– Exaustão – a dor é fatigante. Depois de ter riando com os doentes, variando na própria pes-
estado com dor durante horas ou mesmo soa de acordo com a situação que enfrenta.
dias, o doente, demasiado cansado para
falar ou chorar, adormece. Os enfermeiros “Tolerância à dor é definida como a duração
normalmente equivalem sono com alívio da da dor ou a intensidade da dor que uma pessoa
dor. O que é importante é notar que quando está disposta a tolerar até requerer o seu alívio.”
acordar a dor continua lá. O doente pode (McCaffery, p. 15.)
mesmo fechar os olhos e permanecer imó- Por exemplo, uma pessoa pode tolerar um
vel, aparentando dormir, mas está a tentar certo grau de dor durante a hora da visita por-
tornar a dor suportável concentrando-se em que o analgésico a deixa sonolento, mas pode
outros aspectos. não tolerar a mesma intensidade de dor quando
– Distracção – O doente pode rir e brincar se prepara para dormir.
com as visitas, acompanha-las ao elevador Pode variar com os objectivos da pessoa,
DOR e no regresso pedir analgésicos ao enfer- exemplo da mãe que evita analgésicos durante DOR
o parto com receio de que o seu filho possa so-
meiro. “Se não compreendermos o efeito
16 que a distracção tem sobre a dor, porque frer efeitos colaterais desses medicamentos. 17
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