Page 28 Volume 12, Número 3, 2004
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R. Pacheco, et al.: Analgesia Controlada pelo Doente (PCA) na Prática Clínica: o que os Enfermeiros Devem Saber
ção facultada ao doente durante o período de pré-operatório As complicações associadas à PCA podem ser agrupadas
deve ser reafirmada durante o pós-operatório, imediatamente da seguinte forma:
ao iniciarem o uso do aparelho e durante a recuperação. – Efeitos secundários dos opióides.
Posto isto, existem algumas estratégias que podem ser – Problemas mecânicos com a bomba.
úteis durante o ensino realizado junto ao doente, com vista a – Erro do operador.
utilização da PCA no pré-operatório: Todas essas complicações devem ser verificadas frequen-
– Adoptar um método expositivo simples, com linguagem temente, e formam a base das intervenções de enfermagem
acessível. no período de pós-operatório.
Muitas vezes, é útil para alguns doentes reforçar a infor-
mação verbal com informação escrita (brochuras com Efeitos secundários dos opióides
informação prática sobre a PCA).
– Encorajar o doente na utilização do dispositivo, incenti- Náuseas e vómitos
vando-o ao explicar “ao pressionar este botão, obterá
apenas uma pequena quantidade de fármaco, por isso É um dos efeitos secundários mais frequentes e evidentes
precisa de utilizar esta dose de cada vez que sinta dor”. na administração e.v. dos opióides. Apesar desses efeitos
– Dissipar mitos do doente. Um dos maiores medos, par- secundários não terem um carácter dramático, podem, toda-
ticularmente verbalizados pelos idosos, associado ao via, comprometer a qualidade da analgesia, devendo estar
uso da PCA, é a dependência. Quando o enfermeiro diz instituído um tratamento curativo para tal (antieméticos).
ao doente “esteja descansado que não ficará dependen-
te”, a palavra “dependente” pode ser a única que o Depressão respiratória
doente memoriza. Por tal, preconiza-se evitar o uso des-
ta palavra, procurando adoptar uma postura onde se A depressão respiratória é o efeito secundário mais perigo-
indague o doente sobre as suas preocupações, fazendo so associado ao uso de opióides e um doente utilizador de
com que as verbalize, recorrendo-se a frases como “não PCA deve ser avaliado frequentemente para a possibilidade
se preocupe pois a máquina encontra-se programada dessa ocorrência. Na maioria dos casos, existem factores
para que não haja sobredosagem” ou “os enfermeiros desencadeantes (erro de diluição, injecção complementar de
estarão por perto a monitorizá-lo caso surja algum pro- opióides, administração de benzodiazepinas).
blema”. A depressão respiratória reverte mais ou menos rapidamente
Outra área de intervenção da equipa de enfermagem, se se tratar de um erro de diluição, de programação ou acumu-
face ao doente que irá utilizar a PCA como método de lação progressiva de produto, manifestando-se sobretudo a nível
analgesia, consiste em realizar o ensino ao doente de como da frequência respiratória. A correcta vigilância dos doentes,
ele próprio, juntamente com a equipa de enfermagem, de- mais intensa na altura da substituição do saco onde se encontra
verá avaliar a dor. o fármaco, através da monitorização cardiorrespiratória com re-
O enfermeiro deve explicar ao doente as várias possibili- curso a oximetria de pulso, realizando-se em simultâneo um
dades de o fazer e mostrar-lhe o instrumento que irá utilizar metódico registo de sinais vitais e outras informações em
na avaliação da dor no pós-operatório – escala visual analó- impressos protocolados (sedação, grau de dor, náuseas e
gica (EVA), escala verbal simples (EVS), escala numérica (EN) vómitos, estado hemodinâmico), permite um diagnóstico rápi-
– devendo o mesmo ser adaptado às capacidades cognitivas do e o tratamento com a administração de naloxona.
do doente.
Esse mesmo instrumento de avaliação deve obedecer a Erro do operador
vários critérios que lhe confiram validade, tais como: Encontra-se descrito que muitos efeitos adversos ocorridos
– Pertinência, facilidade e coerência. durante o uso da PCA têm por elemento o erro do operador.
– Fiabilidade, rigor e objectividade. Por tal, torna-se necessário que a equipa de enfermagem
– Simplicidade, facilidade e clareza. esteja treinada e formada para lidar com esse tipo de dispo-
– Compreensível e utilizável por todos. sitivo e regimes de analgesia. Como parte integrada das roti-
A recolha de dados, a análise e a síntese de informação nas de pós-operatório, é crucial que a equipa de enfermagem
permitem ajustar ou pôr em prática uma estratégia antiálgica, verifique regularmente os dispositivos.
facilitando a circulação de informação entre os doentes e os
prestadores de cuidados, dando, desta forma, espaço para Qualidade da analgesia
uma argumentação mais racional na tomada de decisão te-
rapêutica. Torna-se importante a avaliação do doente, relativamente à
dor, com vista a determinar a eficácia da analgesia, sendo
Cuidados de enfermagem no pós-operatório esta uma das intervenções de enfermagem no período de
pós-operatório.
A utilização de PCA, na prática clínica diária, requer uma A escala da dor é um indicador da eficácia do dispositivo
equipa de enfermagem com formação adequada e regular- de analgesia, tendo presente que se realizou um prévio ensi-
mente actualizada, devendo ser estabelecidos protocolos ri- no ao doente de como manusear os instrumentos de avaliação
gorosos para garantir, não só uma boa qualidade analgésica, da dor. Nos casos em que se verifique dificuldades na utiliza-
bem como segurança na sua utilização. É, pois, fundamental ção da EVA, pode-se recorrer à EN ou a EVS, devendo a
estabelecer instruções pormenorizadas sobre os critérios, o qualidade da analgesia ser avaliada em repouso e em esforço
ritmo da perfusão e o local da punção a vigiar, em função dos (esforço de tosse, levante).
antecedentes do doente e do tipo de cirurgia. Por tal, é im- Quando o valor da escala da dor é elevado, então o enfer-
portante instituir protocolos escritos de prescrição e de actu- meiro precisa de rever o dispositivo de PCA, considerar um
ação a seguir, quando surgirem complicações e/ou efeitos eventual uso de analgesia adicional prescrita, ou, então, ree-
indesejáveis. ducar o doente na utilização da PCA. Assim que o doente
As intervenções de enfermagem requeridas durante o pós- recupere o estado de consciência, que lhe permita assimilar
operatório, nos doentes utilizadores de PCA, centram-se na um novo ensino, este deve ser realizado, sublinhando que DOR
prevenção e tratamento dos efeitos secundários dos opióides pode pressionar o botão para realizar os pedidos que enten-
e na monitorização da eficácia do sistema de analgesia. der com o propósito de aliviar a dor. 27
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