Page 23 Volume 17 - N.2 - 2009
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Dor (2009) 17
Na «Pesquisa de sinais fisiológicos e comporta- associou-se significantemente à idade gestacio-
mentais, pelo menos uma vez por turno», verifica- nal mais avançada, ao maior peso ao nascer e
se que a resposta dos enfermeiros se situa nos à presença de ventilação mecânica. Johnston,
92,6% (55,6% «quase sempre» e 37% «sempre») et al. , em 1997, avaliaram 239 RN internados
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e na monitorização efectuada dos registos 45% em 14 Unidades de Cuidados Intensivos neona-
dos registos tinham avaliação da dor pelo me- tais durante uma semana. Nos 66 RN que se
nos uma vez por turno, verificando-se 40% dos encontravam em ventilação mecânica, verifica-
registos sem avaliação de dor. Indicadores so- ram que nesse espaço de tempo foram realiza-
bre a avaliação da dor e a sua valorização refe- dos 2.134 procedimentos invasivos, sendo cerca
rem que 37% dos enfermeiros avalia «quase de 50% punções capilares. Apenas foi prescrita
sempre» a dor pelo menos uma vez por turno; medicação para o alívio da dor em 18 dos 2.134
que 48% avalia «sempre» a eficácia da analge- procedimentos (0,7%). Quanto à intubação tra-
sia; que 40% dos enfermeiros, quando faz ava- queal electiva e à inserção de dreno torácico,
liação da dor, faz «quase sempre» uso do seu foram tomadas medidas analgésicas em 14 e
registo quantitativo para comunicar ao médico; 60% dos procedimentos, respectivamente.
e 60% responde que o médico valoriza essa Estes resultados demonstram o subtratamento
informação «às vezes». da dor no RN.
Um outro estudo realizado por enfermeiras da
mesma Unidade em 2006 sobre a «Percepção Conclusão
dos médicos e enfermeiros acerca da dor cau- Sabe-se, actualmente, que o RN, mesmo pre-
sada por procedimentos aos recém-nascidos» , maturo, apresenta todo o substrato anatómico e
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em que participaram 17 médicos e 43 enfermei- bioquímico para sentir dor. A dor sentida pelos
ros de duas unidades neonatais, demonstrou RN (prematuros e de termo) criticamente doen-
que a injecção sc. e im., inserção de dreno to- tes pode alterar a estabilidade respiratória, car-
rácico, picada do calcanhar, punção lombar e diovascular e metabólica, aumentando a morbi-
venopunção são os procedimentos que estes lidade e a mortalidade neonatais.
profissionais consideram causadores de dor se- Torna-se eticamente exigível valorizar e tratar
vera e/ou intensa. Preconizam como interven- a dor do RN. Nesta dimensão, acrescente-se, a
ções farmacológicas a utilização de paraceta- melhoria da qualidade da assistência ao RN
mol para a realização de penso operatório e de deve estar traduzida numa sensibilidade sempre
opióides (morfina) na colocação de cateter cen- presente para despiste dos sinais de dor e re-
tral, inserção do dreno torácico e punção lombar. gisto dos mesmos, recorrendo a instrumentos de
A utilização do creme anestésico EMLA foi refe- avaliação validados e à implementação de me-
renciada para a venopunção e punção lombar. didas de alívio protocoladas e uniformizadas.
O uso da sacarose a 24% e/ou glicose a 30%, Apesar da existência de um número relativa-
um posicionamento adequado e a redução de mente reduzido de terapêutica analgésica nesta
estímulos (controlo das luzes, redução do ruído) faixa etária, existem alternativas seguras e efica-
são estratégias que também foram considera- zes para o tratamento da dor do RN.
das para a prevenção e alívio da dor em proce- A nossa experiência diz-nos que a avaliação
dimentos considerados dolorosos. regular da dor numa Unidade de Cuidados In-
Muitos outros estudos nesta área demonstram tensivos neonatais é possível e leva a uma maior
que muitos RN (prematuros e de termo) em si- atenção às necessidades de prescrição de me-
tuação crítica chegam a ser submetidos a três didas analgésicas que melhoram, globalmente,
procedimentos invasivos por hora, durante a o bem-estar dos RN em situação de grande vul-
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fase de maior instabilidade clínica . Outros re- nerabilidade.
latam, mesmo em fase de doença menos instá-
vel, a realização de cerca de nove procedimen- Bibliografia
tos por RN a cada semana, enquanto apenas
um RN de 500 g pode chegar a ser submetido 1. Anand KJS, Craif KD. Editorial: New perspectives on the definition
of pain. Pain. 1996;67(1):3-6.
a cerca de 500 procedimentos dolorosos duran- 2. Anand KJS, Hickey PR. Pain and effects in the human neonate and
te o seu internamento na Unidade 1,21 . fetus. The New England Journal of Medicine. 1987;317(21): 1321-9.
Em cerca de 90% dos estudos, o relato de 3. Anand KJS, Carr DB. The Neuroanatomy, neurophysiology and neu-
rochemistry of pain, stress and analgesia in newborns and children.
alívio da dor é raro, estimando-se que apenas Pediatric Clinics North America. 1989;36:795-822.
3% dos procedimentos invasivos sejam realizados 4. Anand KJS; International Evidence-Based Group for Neonatal Pain.
com tratamento analgésico ou anestésico especí- Consensus statement for the prevention and management of pain in
fico e que, em somente 30%, técnicas coadjuvan- the newborn. Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine.
2001;155:173-80.
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tes para a minimização da dor sejam aplicadas . 5. Anand KJS. Clinical importance of pain and stress in preterm neo-
Anand, et al. , em 1996, avaliaram prospectiva- nates. Biology of the Neonate. 1998: 3:1-9.
1
mente 109 Unidades de Cuidados Intensivos 6. Barrier G, Tison A. Measurement of post-operative pain and nar-
cotic administration in infants using a new clinical scoring system.
neonatais nos Estados Unidos da América e Intensive Care Med. 1989;15:37-9.
DOR Canadá durante uma semana e dos 1.068 RN 7. Barros L. Psicologia Pediátrica: perspectiva desenvolvimentista. 1. a
edição. Lisboa: Climepsi Editores; 1999. ISBN: 972-8449-45-3.
internados, apenas 283 (27%) receberam algum
22 analgésico ou sedativo. O uso de analgesia 8. Batalha L, Santos L, Guimarães H. Avaliação da Dor e Desconforto
no recém-nascido. Acta Pediatr Port. 2003;3(34):159-63.

