Page 21 Volume 17 - N.2 - 2009
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Dor (2009) 17
e punção lombar, por exemplo, até aos procedi- movimentação corporal, do choro, das altera-
mentos mais agressivos como a intubação tra- ções do sono e, até mesmo, das alterações na
queal, aspiração traqueal, drenagem torácica e relação mãe-filho.
outros. Ainda assim, o que se verifica é que os Verificamos no entanto, no contexto da práti-
analgésicos e sedativos são muito pouco pres- ca, que alguns RN não choram, ficam hipotóni-
critos . cos durante intervenções dolorosas, o que vai
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Há indícios sugestivos de que o estímulo do- ao encontro de estudos de que evidenciam que
loroso agudo repetitivo ou o estímulo doloroso cerca de 50% dos RN não choram durante o
prolongado modificam a estrutura do sistema procedimento doloroso 11,37 . No contexto do RN
nervoso central do RN alterando, possivelmente, intubado e ventilado, pode-se reconhecer a mí-
a resposta da criança à dor durante a vida futu- mica facial do choro, mas a avaliação das ca-
ra e, talvez, predispondo esse RN a problemas racterísticas sonoras do choro é obviamente
cognitivos, desordens de atenção e comporta- prejudicada. No RN ventilado, o prolongamento
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mento, entre outros . por dias ou semanas da situação de desconfor-
A curto prazo, se a experiência dolorosa persis- to ou dor pode obscurecer as modificações dos
te de forma intermitente ou contínua, o RN pode parâmetros fisiológicos de dor, dificultando em
tornar-se pouco reactivo à dor e apresentar irri- muito a sua utilização. Dessa maneira, as variá-
tabilidade, diminuição da atenção e orientação, veis fisiológicas parecem úteis para avaliar a dor
alteração do padrão de sono, demorando mais na prática clínica, mas, em geral, não podem ser
tempo a conciliar o sono ou a adquirir uma pos- usadas de forma isolada para decidir se o RN
tura de acalmia, com recusa alimentar e tornan- apresenta dor e se há necessidade do uso de
do-se por vezes prostrado. analgésicos 11,22 .
Evidências mostram que as agressões doloro- A utilização sistemática de um instrumento de
sas provocam modificações do sono e vigília, avaliação tem sido uma prática corrente na Uni-
aumentando esta última, e alterações das per- dade, com monitorizações sistemáticas e registo
cepções sensoriais evidenciando uma sensibili- das mesmas, o que tem permitido não só a uni-
zação à dor depois de uma estimulação noci- formização dos critérios de avaliação mas, e prin-
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ceptiva repetida . Isto permite supor que a cipalmente, a mudança de comportamentos que
diminuição da dor, para além de evitar os riscos se têm traduzido na prescrição de analgesia por
potenciais, oferece ao RN um tempo de organi- parte da equipa médica e avaliação da eficácia
zação sensorial que lhe permita um dispêndio da utilização das intervenções farmacológicas e
correcto na compensação de sensações doloro- não-farmacológicas.
sas. O RN é capaz de uma resposta nociceptiva Na Unidade de Cuidados Intensivos, as inter-
mas não organizada . venções de enfermagem orientam-se para os fo-
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cos de atenção relativamente à vigilância do RN,
impostas pela doença e imaturidade funcional e
a nossa experiência para administração de terapêutica e execução
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Desde 1998 que, no HPC, o sector de enfer- de técnicas . Na prática, as variações dos pa-
magem tem procurado investir na área da dor, drões fisiológicos e comportamentais como res-
dando início a um projecto FID. Neste sentido, posta a um procedimento doloroso ajudam-nos
nos últimos 11 anos foram desenvolvidas diver- a valorizar a dor, daí incluirmos no plano de tra-
sas actividades de sensibilização e formação balho intervenções de enfermagem com acções
dos profissionais, de construção de uma cultura do tipo vigiar, avaliar, monitorizar e gerir, com
organizacional baseada em normas e critérios uma apreciação inicial prévia sobre «História de
de qualidade conducentes à produção de uma Dor», incluída no domínio das Sensações.
mudança nas práticas, apesar de sistematica- Utilizámos de 1999 a 2009 a escala Clinical
mente surgirem dificuldades e obstáculos. Scoring System (CSS) – escala de pós-opera-
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O facto da dor ser um fenómeno subjectivo tório que utiliza 10 indicadores comportamen-
tem gerado uma grande dificuldade para a ela- tais. Durante este período, fomos investindo na
boração de um modo único e fácil de avaliação pesquisa e treino de outras escalas de avaliação
na prática clínica. Sabemos que perante um es- e em contexto de organização com suporte no
tímulo doloroso agudo, o RN responde com mo- projecto FID, substituímos esta escala em 2010,
dificações de parâmetros fisiológicos e compor- pela escala Echèlle Douleur et Inconfort du Nou-
tamentais. veau-Né (EDIN) 14,8 – composta por cinco indica-
Na prática clínica, observamos muitas vezes dores: expressão facial, movimentos corporais,
o aumento da frequência cardíaca, da frequência qualidade do sono, qualidade da interacção (so-
respiratória, da pressão arterial e diminuição dos ciabilidade) e reconforto (consolabilidade).
valores da saturação de oxigénio. Esses parâme- Nunca é demais realçar que temos o dever
tros fisiológicos, não sendo específicos de dor, ético de promover o alívio da dor e do sofrimen-
são observados a maior parte das vezes após to no RN, realçando que actualmente os dados
DOR um estímulo doloroso ou desagradável. A ava- de investigação nesta área são objectivos e sa-
liação comportamental do RN costuma ser feita
tisfatórios e devem orientar a prática da equipa de
20 através da observação da expressão facial, da saúde para o uso de terapêutica analgésica 8-11 .
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