Page 20 Volume 17 - N.2 - 2009
P. 20



G. Reis: Avaliação e Controlo da Dor em Cuidados Intensivos Neonatais: Experiência do Hospital Pediátrico
introdução durante muito tempo subvalorizada e subtrata-
7
da. Tal como referido por Barros , até era comum
Desde há anos a esta parte, temos assistido ouvir-se dizer que a criança sentia menos dor
a um interesse clínico e de investigação sobre a que o adulto ou que só muito mais tarde os es-
dor no RN com reflexo no número de publica- tímulos dolorosos poderiam ser percebidos pe-
ções sobre a temática. No entanto, os estudos las crianças.
continuam a mostrar que o controlo da dor nos Esta referência traduzia-se na prática clínica
RN é uma prática que está aquém do que é por muitos dos mitos que existiam (e alguns
aceitável: a avaliação da dor, muitas vezes, não momentos ainda persistem) para o não trata-
é realizada de forma sistemática, não é utilizado mento da dor no RN: a imaturidade neurológica
qualquer instrumento de avaliação, não é regis- do RN, a ausência de memória da dor nessa
tada, ou quando é registada não são verificadas faixa etária e grande toxicidade dos analgésicos
intervenções, a analgesia não é prescrita ou, no período neonatal.
quando é, nem sempre é administrada. O facto dos mecanismos neurais estarem in-
Esta passividade perante as evidências cien- suficientemente desenvolvidos devido à falta de
tíficas e a não aplicação dos resultados das in- mielinização e à imaturidade das conexões si-
vestigação têm condicionado a abordagem e o nápticas levava a pensar que o RN era menos
tratamento da dor. sensível à dor do que um adulto ou eventualmen-
Em Portugal, a nível político, a valorização da te uma criança mais velha. Pese embora na altu-
dor como problema de saúde teve a sua tradu- ra do nascimento a mielinização ainda não esteja
ção na criação em 1992 da Associação Portu- completa, os estudos têm demonstrado que ela
guesa para o Estudo da Dor (APED) e instituição não é indispensável para a percepção e trans-
em 1999 do dia Nacional de Luta contra a Dor missão do estímulo doloroso, pois o transporte
(14 de Junho). Em 26 de Março de 2001, foi do estímulo nociceptivo faz-se essencialmente
aprovado por Despacho Ministerial o Plano Na- através das fibras pouco mielinizadas (δ A) ou
2
36
cional de Luta Contra a Dor e a 14 de Junho de amielinizadas (fibras C) . Para Valdivielso , o RN
2003 é instituída a Circular Normativa n. 9 28,30 . apresenta entre as 30 e as 32 semanas de ges-
o
Esta circular considera «norma de boa prática», tação os núcleos nociceptivos completos e ope-
pelos serviços de saúde: «... registo sistemático racionais, apesar da sua mielinização ainda não
da dor...; a utilização de escalas para a sua se encontrar completa, não impedindo no entanto,
mensuração/avaliação... e a inclusão da dor na a transmissão das mensagens nervosas através
folha de registos de sinais vitais...». das fibras amielinizadas.
Foi entretanto alterada a data do Dia Nacional Actualmente está demonstrado que o RN tem
de Luta contra a Dor, atendendo ao sucesso da pelo menos o mesmo número de terminações ner-
Semana Europeia contra a Dor, que tem vindo a vosas por milímetro quadrado da pele que o adul-
ser celebrada desde 2001, bem como a institui- to, que as vias necessárias à condução da dor
ção do Dia Mundial contra a Dor em 2004. Foi estão completamente mielinizadas às 30 semanas
determinado pela ministra da Saúde, no Despa- de gestação, e que as conexões entre tálamo e
o
cho n. 28683/2008 de 7 de Novembro de 2007, córtex estabelecem-se entre as 20 e as 24 se-
Diário da República 2. série n. 217, a adopção manas de gestação. Por outro lado, as evidên-
o
a
da Semana Europeia contra a Dor, instituindo como cias indicam que às 30 semanas de gestação há
Dia Nacional de Luta contra a Dor a sexta-feira distinção entre sono e vigília e que o RN memo-
15
da respectiva semana de cada ano . riza estímulos visuais 2,16,34 .
A Direcção Geral da Saúde, através da Circular Nos últimos 30 anos, as investigações nesta
o
Normativa n. 11 de 18/06/2008, emitiu o novo Pro- área demonstraram claramente que o sistema
grama Nacional de Controlo da Dor, que se insere neurológico relacionado com a transmissão de
no âmbito do Plano Nacional de Saúde 2004-2010 dor está, na altura do nascimento, completo,
e conta com o aval científico da APED, dando intacto e perfeitamente funcional . A imaturidade
3
sequência ao plano anterior, definindo novos ob- dos mecanismos inibitórios só fazem do RN um
jectivos e novas estratégias operacionais . ser mais vulnerável à experiência de dor, e seja
29
Nestes objectivos estão centralizados os prin- qualquer for o motivo da hospitalização é bem
cípios de um tratamento diferenciado da dor e o provável que durante a mesma o RN seja sujei-
controlo da mesma num grupo tão vulnerável to a inúmeras situações desagradáveis ou dolo-
como os RN. Neste sentido, nunca será demais rosas .
17
a abordagem desta matéria no sentido da sua A dor e o stress, que ocorrem continuamente
operacionalização, procurando modelos de or- nas Unidades de Cuidados Intensivos, potencia-
ganização de cuidados que priorizem a avalia- lizam a instabilidade clínica do RN. Estas situa-
ção e tratamento da dor no período neonatal e ções são comuns nestas Unidades e variam
cujos resultados se traduzam em boas práticas desde os cuidados gerais como o banho e a
e diminuição da morbilidade e número de dias pesagem, passando por procedimentos mais
de internamento. invasivos para determinação de diagnóstico que DOR
A dor em Neonatologia tem sido difícil de es- incluem as punções venosas para colheitas, pi-
tudar e, paralelamente à dor em Pediatria, foi cada do calcanhar para monitorização da glicemia 19
   15   16   17   18   19   20   21   22   23   24   25