Page 20 Volume 17 - N.3 - 2009
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Dor (2009) 17

Dos Gestos Externos aos Movimentos


Internos: (A)pesar da Dor *


João Boavida







Resumo
A dor crónica constitui-se como um fenómeno clínico complexo que afecta diversas dimensões da vida dos
doentes. Este artigo pretende reflectir sobre as ligações entre dor crónica e dor mental. O desamparo, inscrito
na espécie humana e tantas vezes reproduzido na dor, invade e inflama o corpo. Salienta ainda a necessidade
de compreensão interna da dor, bem como a importância da relação terapêutica como meio potenciador de
mudança.
Palavras-chave: Dor crónica. Dor mental. Desamparo. Relação terapêutica.



Abstract
Chronic pain is a complex clinical issue which impacts the lives of patients in many different ways. This
paper aims to reflect upon the links between chronic pain and mental pain. Dereliction, inscribed in human
species is often reproduced in a pain that invades and inflames the body. In this paper we will underline the
need to understand the internal pain in terms of metal pain and the importance of the therapeutic relationship
as a tool to promote change. (Dor. 2009;17(3):19-22)
Corresponding author: João Boavida, jfboavida@gmail.com

Key words: Chronic pain. Mental pain. Dereliction. Therapeutic relationship.




A dor é um dos mais antigos e comuns sinto- emocionais e comportamentais, além das fisioló-
mas da prática clínica e constitui-se como uma gicas e sensoriais. Este tema desperta por isso o
das variáveis que mais afectaram o desenvolvi- interesse de áreas de estudo tão distintas como
mento da história humana, sendo que cada cul- a saúde, a filosofia, a sociologia, a antropologia, a
tura deixou o seu testemunho acerca da forma religião, entre outras, sendo também fonte de
de sentir a dor e o impacto causado por esta. interesse para o mundo das artes como o cine-
Podemos pensar, por exemplo, nas tentativas ma, o teatro, a dança, a pintura e a literatura.
primitivas de compreensão da dor através de A dor crónica afecta diversas dimensões na
teorias mágicas e religiosas, tratando-a com ri- vida dos doentes. Em geral, há um declínio sig-
tuais de evocação de espíritos. Pensemos tam- nificativo da funcionalidade, dos relacionamentos
bém como Hipócrates na Grécia Clássica foi sociofamiliares e da qualidade de vida nos indiví-
pioneiro em recomendar técnicas de resfriamen- duos com dor crónica, reduzindo progressivamen-
to e fisioterapia para alívio da dor ou a introduzir te o seu lugar na sociedade e o seu sentimento
o ópio no alívio da mesma, base ainda hoje de de pertença, potenciando e aumentado o lastro
medicamentos que a aliviam . das suas incapacidades.
2
A vivência do próprio corpo transforma-se. As
A dor existe desde que existe humanidade suas funções motoras e os seus ritmos biológicos
como o sono e o apetite são alterados.
Actualmente olhamos para a dor como um fenó- A partir da dor que se instala, ocorre também
meno complexo, subjectivo e sujeito às particula- uma alteração profunda da vivência subjectiva
ridades de cada indivíduo, envolvendo dimensões do corpo. O desamparo apodera-se do Ser, da



Psicólogo Clínico
Membro Fundador Associado dos ramos de Psicanálise e
Psicoterapia Psicanalítica da AP – Associação Portuguesa *Comunicação apresentada no 8. Convénio da Associação DOR
o
a
de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica para o Desenvolvimento da Terapia da Dor (ASTOR) – 17.
E-mail: jfboavida@gmail.com Jornadas da Dor do HGO a 29/01/2010. 19
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