Page 24 Volume 17 - N.3 - 2009
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Dor (2009) 17

Rever o Passado, Antever o Futuro



José Luís Portela




Janela para o futuro
J.L. Portela, no ano de 1979, marcou o início formal da medicina da dor em Portugal, ao criar a
primeira Unidade de Dor no Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil Martins em Lisboa.
Fruto da sua personalidade arrojada, irrequieta e irreverente, imbuído de espírito construtivo e
empreendedor, e com o seu timbre despido de preconceitos, transpôs todas as barreiras concretizando
um projecto que rompeu com «o ciclo vicioso da dor dando início ao ciclo virtuoso da dor».
A sua prolongada convivência profissional com a dor e o sofrimento dos doentes, aliada ao seu
espírito arguto e inconformista com o imobilismo de profissionais e instituições prestadoras de
cuidados de saúde, adicionada ao seu desejo de aquisição e actualização de conhecimentos,
lançou as sementes de uma nova cultura e disciplina, abrangendo diversos domínios no
diagnóstico e tratamento da dor crónica.
A «sua» Unidade de Dor representou um bastião de aprendizagem tendo influenciado várias
gerações de profissionais, o que o responsabiliza pelos vários herdeiros do seu pensamento
disseminados por todo o País.
O nosso «Papa», como muitos de nós carinhosamente lhe chamamos, tem reconhecido mérito,
prestígio e estatuto indiscutível.
Um enorme obrigado pelos ensinamentos e aconselhamento que nos deu, assim como no
acompanhamento nos momentos de maior complexidade da vida.
Cumpriu bem a missão a que se propôs: criar uma nova «família» na medicina portuguesa
e deixar sucessores que garantam a sua continuidade.

Beatriz Craveiro Lopes


Faz este ano precisamente 31 anos que foi A dor era uma constante: física, por vezes
inaugurada, no Instituto Português de Oncologia lancinante, emocional, com quadros frequentes
de Gentil F, em Lisboa, a primeira Consulta de de depressão, arrastando familiares e amigos
Dor em Portugal, destinada ao estudo, avaliação que se sentiam impotentes perante o que con-
e tratamento da dor em doentes oncológicos. sideravam uma inevitabilidade.
Eram tempos difíceis para estes doentes. Era preciso descobrir, redescobrir e criar.
Vivia-se um pouco na euforia que se instalou Curiosamente havia muito a descobrir.
na classe médica da altura, dos grandes avan- Passados anos de aparente estagnação, quer
ços das tecnologias, que pareciam tudo invadir na investigação quer na descoberta de novos
e com elas êxitos assinaláveis na cirurgia e em fármacos, em parte fruto de uma mentalidade
várias modalidades terapêuticas, como a radio- judaico-cristã que teimava em persistir em rela-
terapia e a quimioterapia. ção ao fenómeno dor, tinham surgido em 1965,
Avaliavam-se os doentes em função das so- 1973 e 1975, três factos notáveis.
brevidas, cada vez maiores, mesmo que estas O 1. foi a teoria do gate control de Melzack
o
se traduzissem, muitas vezes, por escassos dias R, psicólogo canadiano, e Wall P, anatomista
ou semanas. inglês, publicada na prestigiada revista Scien-
A cura da doença passou a ser o denominador ce, da Sociedade Americana para os Avanços
comum de toda a actuação em Medicina, pare- da Ciência, em que se postulava que a dor
cendo quase que os insucessos se deviam ao não era apenas o simples resultado da acti-
próprio doente e não à ineficácia das técnicas. vação dos nociceptores, mas a modulação,
Em consequência, os doentes que não sobre- por interacção entre diferentes neurónios, da
viviam aos êxitos – e eram muitos – arrastavam-se transmissão de sensações álgicas e não-álgi-
pelas consultas, vítimas da doença e das tera- cas.
pêuticas, com quadros de grande desconforto e Nela se chamava a atenção para a região
sofrimento. medular, particularmente o corno posterior da
medula, como uma autêntica central algogénica,
onde confluíam não só estímulos periféricos, ál-
gicos e não-álgicos, mas também estímulos cen- DOR
Director Aposentado de Clínica da Dor IPO trais, descendentes, que poderiam bloquear a
Lisboa passagem do estímulo. 23
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