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P. Linhares: Dor e Estimulação Cerebral Profunda
e Hosobuchi, et al. Em 2001, Leoni, et al., e em Também no short-lasting unilateral neuralgi-
2003 Franzini, et al., reportaram a eficácia do form headache with conjuntival injection and tea-
tratamento das cefaleias em cluster com a esti- ring (SUNCT) parece haver resultados similares
mulação hipotalâmica. A história não pára aqui aos da cefaleia em cluster com a estimulação
e num futuro próximo muito mais situações serão cerebral profunda.
certamente reportadas.
Dor do membro fantasma © Permanyer Portugal 2012
Classificação da dor Estima-se que mais de 80% dos doentes com
De uma forma simplista, a dor pode ser clas- perda total ou parcial de um membro desenvol-
sificada em duas categorias, nociceptiva e vem dor do membro fantasma. Os fatores de
neuropática. A dor nociceptiva é a dor secun- risco para o desenvolvimento deste tipo de dor
dária a lesão tecidular no contexto da integri- incluem o sexo feminino, a amputação do mem-
dade funcional do sistema nervoso, responde bro superior, a presença de dor pré-amputação,
aos analgésicos opióides e à estimulação da a presença de dor residual no membro restante
substância cinzenta periaquedutal/periventricu- e o tempo após a amputação. Fatores emocio-
lar. A dor neuropática é uma dor iniciada ou nais como o stress, a ansiedade e a depressão
causada por uma lesão primária ou disfunção também contribuem para o agravamento da dor.
do sistema nervoso. Clinicamente pode assumir Esta dor tem uma natureza neuropática, estando
várias características e ser constante ou episó- envolvidos mecanismos centrais e periféricos,
dica. Responde ao tratamento com antiepiléti- incluindo alterações neuroplásticas no sistema
cos e antidepressivos e à estimulação dos nú- nervoso central (SNC). A nível cerebral, estas
cleos talâmicos. alterações traduzem-se por modificações da ex-
São exemplos de dor nociceptiva a dor dis- citabilidade neuronal, mudança na organização
cal, a dor da síndrome da cirurgia lombar falha- somatotópica nas áreas corticais e subcorticais
da e a dor neoplásica. A dor pós-acidente vas- e alterações estruturais nas camadas neuronais.
cular cerebral (AVC), a dor talâmica, a dor na A evidência até à data sugere que a eficácia da
esclerose múltipla, a dor parkinsónica e as dores estimulação cerebral profunda na dor do membro
resultantes de lesão medular, de arrancamento fantasma é controversa, no entanto alguns doentes
de plexo, a dor do membro fantasma, as neuro- beneficiam claramente desta técnica, com melho-
patias e as síndromes de dor regional complexa ria significativa da dor e da qualidade de vida.
são exemplos de dor neuropática.
Uma metanálise dos casos reportados sugeriu Dor pós-AVC
que a eficácia a longo prazo da estimulação
cerebral profunda é alvo-específica para o tipo A dor pós-AVC refere-se à dor resultante de lesão
de dor a ser tratada, pelo que apesar de alguns primária ou disfunção do SNC após um AVC. Pode
autores não considerarem esta distinção muito ocorrer após lesão talâmica ou extratalâmica, ao
rígida, ela deve ser tida em conta. longo do feixe espinotalâmico e das suas projeções Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação.
As cefaleias em cluster são uma síndrome do- corticais. Apresenta uma grande diversidade;
lorosa particular e com um alvo próprio de esti- pode ser contínua ou paroxística e surgir de forma
mulação. A dor do membro fantasma parece espontânea ou ter um fator desencadeante. Pode
apresentar uma patogénese algo diferente das ser em queimadura, em picada, em aperto, late-
restantes dores neuropáticas. jante ou dilacerante. Com frequência associa-se a
alodinia, disestesias e hiperalgesia. Pode ser agra-
Cefaleias em cluster vada por vários estímulos como o toque, o movi-
As cefaleias em cluster são o tipo mais comum mento, a temperatura e mesmo o stress. Na maio-
ria dos doentes surge nos primeiros seis meses
de cefaleia trigemino-autonómica. Caraterizam- após o AVC. A distribuição da dor em termos de
-se por início súbito de dor unilateral severa, frequência é pelo braço, perna, tronco e face,
envolvendo o olho, a região periorbitária e malar sendo o padrão mais comum o do hemicorpo.
e podem apresentar sinais de disfunção autonó-
mica. Sintomas comórbidos típicos incluem o
lacrimejo e injeção conjuntival do olho afetado, Estimulação cerebral profunda
congestão nasal e rinorreia, miose e ptose pal- As vantagens da estimulação cerebral profun-
pebral. Os critérios de diagnóstico estão bem da são a sua reversibilidade, o não ser destruti-
definidos. Cerca de 20% dos doentes são resis- va e a possibilidade de ajuste dos parâmetros
tentes à terapêutica medicamentosa. de estimulação.
A estimulação hipotalâmica produz uma mo- O mecanismo pelo qual a estimulação cere-
dulação funcional na matriz neural da dor. bral profunda alivia a dor é ainda incerto. Muito
Os resultados reportados apontam para uma provavelmente a estimulação talâmica suprime a
melhoria significativa da dor. Franzini reportou o dor através das vias descendentes tálamo-corti-
alívio completo da dor nos cinco doentes sub- cofugais. Também as alterações da excitabilida- DOR
metidos a estimulação e Schoenen mostrou be- de neuronal cortical promovidas pela estimula-
nefício em três dos seis doentes operados. ção parecem contribuir para a redução da dor. 13
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