Page 14 Volume 11, Número 4, 2003
P. 14



Dor (2003) 11 Paulo Moita: A dor existe - Preconceitos sobre a dor

A dor existe - Preconceitos sobre a dor



Paulo Moita





We must all die. But that I can save him from days of torture, that is what I feel is my great and ever new privelege.
Pain is a more terrible lord of mankind than even death himself.


Introdução “… não lhe pode estar a doer tanto assim, é
A visão, a audição, o cheiro e o paladar são um maricas, um histérico. Deve pensar que eu
exemplos de percepções sensoriais que atingem não sei ver se ele tem dores ou não. Está a fingir!
o cérebro sob a forma de impulsos eléctricos, Quer que lhe dêem miminhos. Se tivesse dores,
sendo aí registados e percebidos determinando a “morfina fisiològica” que lhe fizemos não teria
geralmente uma acção. tido “efeito”.
A dor é um fenómeno semelhante, e a acção Por certo todos nós crescemos numa cultura
ou resposta a este estímulo é mediada pelo que nos ensina a estar atentos aos muitos si-
cérebro e é geralmente dirigida à eliminação nais gestuais, comportamentais, expressões, de
da causa. uma forma global a linguagem “corporal” que
No entanto, apesar do elevado nível do conhe- acompanha a nossa expressão verbal de deter-
cimento científico, tanto a origem como o modo minado facto, interpretando as mensagens na
como ela é percebida permanecem longe de sua globalidade. Essa visão global, quando se
estarem completamente esclarecidos. pretende analisar a expressão de dor por parte
Apesar de fazer parte do nosso vocabulário de alguém, impõe normalmente uma leitura final
diário, não fomos ainda capazes de definir que coloca em dúvida essa mensagem de dor.
completamente dor, embora a proposta da Por outro lado, a cultura profissional que va-
IASP (International Association of the Study of mos absorvendo no nosso dia a dia de trabalho
Pain) se aproxime bastante: “uma experiência reforça essas ideias de duvidar com bastante
emocional e sensorial geralmente desagradá- frequência da dor expressa pelo doente.
vel, associada a lesão tecidular real ou po- É, pois, essencial que tomemos consciência
tencial, ou descrita em termos dessa lesão”. desses julgamentos, dos descréditos que lança-
(Antunes, p. 11.) mos sobre a dor dos nossos doentes, para que
Segundo Bonica, citado por Portela (p. 81), es- a nossa actuação dentro da equipa de saúde
tima-se que 3,5 milhões de doentes oncológicos, se possa pautar pela defesa isenta do nosso
em cada ano, sofrem de dor relacionada com a doente.
sua doença e “apenas uma pequena parte des- 1 – Preconceito – A equipa de saúde é a au-
tes doentes recebem tratamento adequado”. toridade sobre a existência e a natureza da dor
Será que os enfermeiros se encontram des- do doente.
pertos para este problema? *Na verdade, a pessoa que tem dor é a única
Será que fazem uma avaliação correcta do autoridade sobre a existência e a natureza des-
problema de dor do doente? sa dor, dado que a sensação da mesma apenas
Que conhecimentos, que preconceitos face à pode ser sentida pela pessoa que a tem.
dor e quais os mitos que, transmitidos quer pela “A questão básica é de quem é a dor? A res-
cultura da sociedade em geral quer pela cultura posta, claro está, é a de que a dor é do doente
profissional, dificultam a avaliação correcta da … o doente é a única autoridade acerca da sua
dor que existe? dor.” (McCaffery, p. 6.)
Esta questão da autoridade é motivo para
Preconceitos grandes discussões entre a equipa de saúde, a
família e o doente, nas quais os dois primeiros
Quantos de nós, enfermeiros da “tarimba”, em erroneamente acreditam que podem determinar,
que os anos de profissão são garante de um “sa- independentemente da opinião do interessado¸
ber de experiência feito”, não participámos em se a dor existe e se ela é mais ou menos intensa.
diálogos cujo conteúdo teria uma semelhança Se pretendemos ajudar o doente esta atitude é
extraordinária com o seguinte: prejudicial.
Para ajudar o doente com dor, o aspecto
mais difícil e mais importante que devemos ter DOR
Enfermeiro Especialista em conta é aceitar que apenas o doente pode
do Hospital Egas Moniz, SA, Lisboa sentir a dor. 13
   9   10   11   12   13   14   15   16   17   18   19