Page 15 Volume 11, Número 4, 2003
P. 15
Dor (2003) 11
A equipa de saúde prefere normalmente lidar num risco maior, grave e não admissível de não
com um sintoma que pode ser detectado e me- cuidar dos que de facto têm dor.
dido como um valor de temperatura. Mas a dor 2 – Preconceito – Os nossos valores pessoais
não é palpável, temos de perguntar ao doente e a nossa intuição acerca da credibilidade dos
como é que esse sintoma o afecta, pois não te- outros é um instrumento válido na tentativa de
mos uma medida directa para a sua avaliação, identificar se uma pessoa está a mentir sobre
não temos um termómetro da dor. a sua dor.
Mesmo após instituir medidas para o seu alívio *Se bem que devam servir para as nossas
o seu sucesso só pode ser avaliado se nova- vidas sociais, os nossos valores pessoais e as
mente perguntar-mos ao doente sobre como nossas intuições não são credíveis numa abor-
evoluíu a sua dor. Não querendo chamar-lhe dagem profissional ao doente com dor.
“experiência humilhante”, como faz McCaffery Todos os dias somos tentados e julgamos
(p. 7), porque nos faz depender sempre do do- outros mesmo em encontros ocasionais, somos
ente para tomar decisões, cuidar de um doente levados a ficar com uma impressão sobre alguns
com dor é um trabalho que exige um esforço aspectos de determinada pessoa baseada em
constante de avaliação das nossas acções. informação inconsciente ou difícil de explicitar.
Lembra também McCaffery que os doentes Basta por vezes o impacto visual ou uma si-
não gostam de tomar consciência de que o tuação menos clara para criar um distanciamen-
sintoma dor é subjectivo e que não podem fa- to entre pessoas e este tipo de atitudes na nossa
zer prova da sua existência, esperando apenas actividade profissional não ajuda o doente.
que encontrem alguém que acredite nela. Foi Quando o seu estilo de vida é diferente do
esta subjectividade que levou ao aparecimento nosso somos levados a invocar os nossos valo-
de instrumentos de trabalho – como as escalas res na avaliação da sua dor, mesmo que essa
de dor – que permitem uma avaliação da dor atitude seja inconsciente.
com um carácter menos subjectivo transmitindo Mas se podemos escolher não ter relações
informação sobre as sensações dolorosas. sociais com alguns doentes, não temos o direito
Existem, contudo, doentes que não podem ex- de profissionalmente actuar punitivamente pela
pressar a dor que sentem por dificuldades de supressão ou retenção da terapêutica adequada
linguagem, por não estarem conscientes, entre para a dor.
outros. Nestes casos é necessário desenvolver Pôr de lado valores pessoais quando cuidamos
capacidades para fazer um palpite sustentado de alguém não é fácil mas é necessário, se que-
nos conhecimentos que podemos ter sobre pa- remos prestar cuidados com um grau de qualida-
tologias semelhantes e do tipo de dor que doen- de elevado e isso é cuidar humanamente.
tes que se encontravam em condições idênticas 3 – Preconceito – A dor é sobretudo um pro-
dizem ter experienciado. blema emocional ou psicológico, especialmente
A observação de comportamentos não ver- nos doentes muito ansiosos ou deprimidos ou
bais como choro, postura rígida ou agitação que não têm uma causa física, claramente iden-
podem dar-nos alguma informação sobre a tificável, para a sua dor.
dor, devendo ser sempre revista quando sur- *Uma reacção emocional à dor não significa
jam novos dados transmitidos por alguém que que a dor seja motivada por um problema emo-
conheça melhor o doente (familiar, amigo). Não cional.
deixa, contudo, de ser uma “adivinha”, pelo que Se o doente deixar de estar ansioso ou de-
as informações mais fiáveis são as do próprio primido, não significa que tenha havido uma
doente. melhoria da sua dor. Também, por não se con-
McCaffery (p. 7), em função da subjectividade seguir encontrar uma causa física para a dor,
da dor, propôs uma definição para a prática de não significa que ela de facto não exista na
enfermagem que se pode traduzir por: “Dor é génese dessa dor.
aquilo que a pessoa que a experiencia diz que “A dor normalmente provoca um certo grau de
é, existindo da forma que a pessoa que a expe- ansiedade ou depressão, e é normal que assim
riencia diz que existe.” Ou seja, quando alguém seja.” (McCaffery, p. 9.)
diz que tem dor, ela de facto existe, tem de ser Contudo, as relações desta tríade não são
crer no doente ou, no mínimo, dar-lhe o benefício muito claras, e se podemos considerar que é
da dúvida. pouco provável que a ansiedade ou depressão
Esta atitude estará correcta? sejam a causa de uma dor, é certo que influen-
Não poderemos ser enganados? ciam a forma de o doente lidar com a sua dor.
Talvez, mas essa dúvida não deverá nunca le- McCaffery (p. 9) diz que, no doente, a “… ansie-
var a que alguém seja privado de alívio face à dade ou depressão provavelmente tornam a dor
sua dor. Não podemos ficar à espera que a sub- mais difícil de suportar e afectam negativamen-
jectividade seja transformada em objectividade te a perspectiva, a motivação ou a capacidade
para podermos actuar, pois corremos o risco para se implicar no seu processo de controlo
DOR de apresentar uma conduta não profissional. Ao da dor”.
evitar tratar uma minoria de doentes que possam
Pelo contrário, e segundo o mesmo autor, a
14 estar a mentir ou a simular a sua dor, incorremos intensidade da dor não parece ser afectada pela

