Page 17 Volume 17 - N.2 - 2009
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percorrer na sensibilização dos profissionais de creme EMLA não será puncionada. Ora isto tem
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saúde para a problemática do controlo da dor. grande relevância em termos económicos (des-
Das 3.768 crianças estudadas verificámos que perdício de produto). Se neste estudo o EMLA ®
a maioria, 1.768 (46,9%), recorre ao SU nos pri- fosse aplicado na triagem a todas as crianças
meiros três anos de vida e que os primeiros seis previstas pela LC, e admitindo um custo de
anos representam 70,4% das crianças. A tendên- 1,12 euros por criança (um grama por criança),
cia para recorrer ao SU decresceu com a idade, teríamos gasto 465 euros (punção prevista a
a exemplo do estudo realizado por Launay, et 415 crianças). Como foram puncionadas 195, o
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al. em que 59,2% das crianças que recorreram custo efectivo foi de 218 euros, o que dá um
ao SU tinham idade inferior a cinco anos. O desperdício de 247 euros (0,59 euros/criança).
facto de termos crianças cuja idade máxima é Por ano são atendidas no nosso SU cerca de
de 16 anos, resulta do Hospital atender crianças 64.000 crianças, o que representa usando a LC
com idade superior a 13 anos em algumas situ- a identificação para punção de 7.040 (11%)
ações de doença crónica ou multideficiência. crianças. Se em cada criança se estima um des-
Fournier-Charrière refere que o uso de uma perdício de 0,59 euros, o gasto total desneces-
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LC pelo enfermeiro na triagem melhora todos os sário representa 4.154 euros ao ano. Apesar de
indicadores de validade (sensibilidade e espe- não podermos descurar os custos, é ética e
cificidade) e capacidade preditiva (VPP e VPN). moralmente inaceitável tomar a decisão de não
No nosso estudo, isso apenas se verificou na controlar a dor. Para mais, a LC tem grande
sensibilidade 88 versus 69%. Ao optarmos por sensibilidade e o VPP pode ser melhorado com
um desenho de estudo em que os enfermeiros a formação dos profissionais de saúde no uso
utilizam na mesma criança os dois métodos de criterioso da lista. Os resultados deste trabalho
identificação (LC e IC) poderá ter influenciado podem ser úteis para a formação dos enfermei-
positivamente a decisão do enfermeiro, o que ros no uso das LC na triagem do SU e como
apenas reforça a convicção de que o uso da LC mais uma iniciativa para a sensibilização dos
é preferível. Todavia, o uso de um desenho de profissionais de saúde para o controlo da dor em
estudo com grupos de controlo poderá esclare- pediatria. Estudos similares podem ser realiza-
cer melhor esta dúvida. dos para outras situações e contextos, para
Quando o enfermeiro usa como método de além da punção venosa e SU.
previsão da punção venosa a sua IC (sem lista), Os vómitos incoercíveis, febre com mais de
os resultados são inferiores na identificação das cinco dias de evolução ou má perfusão periféri-
crianças que realmente necessitam de ser pun- ca, gemido/irritabilidade/prostração e a previsão
cionadas (sensibilidade) e na probabilidade de de administração endovenosa representaram
ser puncionada quando o enfermeiro prevê essa mais de metade das situações que exigiram a
necessidade (VPP) através de uma lista de situ- punção venosa da criança. Por esta razão, os
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ações que motivam a vinda da criança ao SU . enfermeiros devem estar atentos a estas situa-
Quando comparamos os nossos resultados com ções, principalmente em crianças mais peque-
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os do estudo realizado por Carbajal, et al. , os nas pela sua particular vulnerabilidade à dor e
valores da validade revelam valores semelhan- agravamento da sua situação de saúde.
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tes para a especificidade e VPN mas uma me- Em relação à lista elaborada por Carbajal, et al. ,
lhor sensibilidade para a LC usada por nós a nossa não contempla situações de febre e
(88 versus 81%) e um pior VPP (47 versus 67%). ardor à micção, febre em função da idade, situ-
Como o valor preditivo é influenciado pela pre- ações de crise de drepanocitose e claudicação
valência do acontecimento (crianças punciona- não-traumática. Em compensação, contempla
das), o valor encontrado depende do contexto situações em que se prevê a administração de
em que foi realizado cada um dos estudos. A medicação endovenosa, situações traumáticas
prevalência de crianças puncionadas no estudo com necessidade de ida ao bloco operatório,
de Carbajal, et al. foi quase o dobro (10,8%) febre com petéquias, e febre com má perfusão
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do que apurados no nosso estudo (5,9%). Para e/ou gemido e/ou irritabilidade/prostração. As
isso terá contribuído a introdução do fármaco situações seleccionadas estão relacionadas
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antiemético e antivertiginoso Ondansetron , du- com a área de abrangências dos referidos hos-
rante o período em que decorreu a investigação, pitais, características da população pediátrica
a todas as crianças com vómitos incoercíveis, que serve, protocolos de tratamento instituídos
sinais de desidratação e/ou diarreia, e que aju- e modo de funcionamento do SU em relação ao
dou a diminuir a prevalência de crianças pun- encaminhamento dado às crianças na admis-
cionadas. Este dado não foi considerado na são. Todavia, situações de febre associada à
concepção da LC, porque ocorreu a posteriori, idade da criança e as mialgias podem ter parti-
mas deverá ser um critério a ter em conta numa cular interesse, dado que a primeira é uma quei-
próxima revisão da lista e uma prática médica a xa frequente no SU e a segunda motivo frequen-
considerar, pois parece evitar que muitas crian- te de punção.
DOR ças venham a necessitar de ser puncionadas. das antes de decorridas duas horas e 43 minutos
Pelo menos 75% das crianças foram punciona-
Um VPP de 47% significa que quase uma em
16 cada duas crianças em que se prevê aplicar o após a triagem, o que consolida o descrito por

