Page 28 Volume 17 - N.3 - 2009
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J.L. Portela: Rever o Passado, Antever o Futuro
Outra área onde será de esperar desenvolvi- financeiros necessários para a pesquisa e o tra-
mentos futuros será nas formulações/reformula- tamento a fim de cessar esta calamidade.»
ções dos sistemas de administração, com base E mais adiante:
nas novas tecnologias ou implantes subcutâneos, «Enquanto o homem não tiver capacidade de
bem como a procura de novos produtos com controlar o seu sofrimento o desafio da dor per-
baixo nível de interacções e baixa incidência de manecerá mais colossal que nunca.»
efeitos secundários. Ao nível dos direitos, a dor deixou de ser uma
Estudos sobre novos opióides, com mecanismo inevitabilidade da esfera pessoal e íntima de cada
de acção mais alargado e melhor perfil de segu- um para entrar na esfera dos direitos e deveres.
rança como o tapentadol, ou terapêuticas de Não é aceitável que, nos nossos dias, a dor e
segunda linha como, por exemplo, o ziconotide, o sofrimento não estejam nas preocupações dos
uma nova classe de analgésicos não-opióides profissionais, instituições e políticas de saúde.
conhecida como bloqueadores dos canais de Pode ser considerado hoje negligência, com
cálcio tipo N, poderão, sem dúvida, preencher todas as suas consequências, não tratar ade-
lacunas numa área como a dor crónica, que quadamente a dor e o sofrimento quando temos
abrange cada vez mais faixas etárias alargadas, à nossa disposição meios para o conseguir.
co-morbilidades e aumento da longevidade. E esta atitude é tanto mais grave quando esta-
Outra área de grande interesse e onde se espe- mos na presença de pessoas mais fragilizadas,
ram grandes avanços é o sistema canabinóide. como a criança e o velho, os débeis económicos,
Há uma relação paralela mas não indepen- as pessoas com dificuldades de comunicação,
dente entre este sistema e o sistema opióide. a doença avançada e terminal.
E apesar de actuarem em receptores e vias E esta responsabilidade é de todos e envolve
distintas, ambos actuam em alguns locais comuns toda a sociedade.
do sistema nervoso, parecendo potencializar-se Quando se aproximam tempos em que prova-
um ao outro. velmente iremos ser chamados a pronunciarmo-
A discussão actual sobre a utilização da can- -nos sobre o destino dos nossos concidadãos,
nabis na dor implica separá-la do seu uso para é bom que nos interroguemos se fizemos tudo o
fins recreativos que gera preconceitos pela sua que humanamente deveríamos ter feito para evi-
comercialização e utilização ilegal e o seu ver- tar todo o sofrimento inútil.
dadeiro papel como substância activa na tera- É fundamental, também, que o doente cumpra
pêutica da dor. o seu dever que é o de, uma vez informado e
Isto implica, necessariamente, uma investigação esclarecido, colabore responsavelmente no seu
séria sobre o sistema canabinóide endógeno e tratamento e decida, conscientemente, o que
o real valor terapêutico de substâncias que considere o melhor para si.
actuem a este nível, incluindo eficácia e efeitos Vivemos a grande época da comunicação e
secundários. da informação.
Julgo que estamos numa fase do desenvolvi- Como considera Jaspers, «…a novidade, hoje,
mento e do progresso científico em que o acaso é que a história da nossa época se tornou, pela
ou a experimentação acidental são cada vez primeira vez, universal (...) a história que se de-
mais reduzidas. senvolveu até aqui não é mais do que uma co-
Cada vez mais a investigação procura anteci- lecção de crónicas locais.»
par-se ao imprevisto, formular hipóteses e propor É indescritível a catadupa de informação hoje
soluções, melhorando a eficácia e diminuindo os em dia disponível.
efeitos secundários, numa autêntica terapêutica Na primeira década de 1990 existiam 10 re-
adaptada e mediada pelo doente. vistas de Medicina.
Apesar de tudo, a dor é e será sempre um Hoje contam-se pelas centenas de milhar.
desafio. Os portais médicos funcionam como autênti-
No interessante livro de Melzack R e Wall P, cas enciclopédias, quer no diagnóstico quer na
Le défi de la douleur, na sua versão francesa, terapêutica.
no capítulo «Perspectivas no controlo da dor», Segundo Ellis, o conhecimento científico du-
afirma-se a dada altura: plica cada seis anos.
«Apesar de todos os novos conhecimentos O que hoje parece ficção amanhã é realidade.
nos mecanismos da dor e dos enormes suces- É o tempo de novas fronteiras.
sos das terapêuticas modernas, a dor constitui, A nave Enterprise, na sua incansável procura
sempre, um desafio. de um planeta habitável após a destruição da
É um desafio para o homem da ciência que Terra, procura, em cada capítulo, novos planetas
tente compreender, para o terapeuta que procu- e novas formas de vida.
ra aliviar, para o doente que lhe procura fazer Saibamos nós, humanos, encontrar esse espí-
face, um desafio, enfim, para a sociedade em rito e olhar o passado como fonte de inspiração
geral que deve procurar e encorajar os recursos para o presente e o futuro que nos espera.
DOR

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