Page 27 Volume 17 - N.3 - 2009
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da dor, já direccionado nesse sentido pelo con- 2004, proposta por um conjunto alargado de
ceito anterior de dor total e de qualidade de vida especialidades médicas, veio preencher um es-
que ganha alguma visibilidade pelo esforço de paço importante nesta temática, permitindo que
alguns, devendo realçar-se, entre nós, Marques qualquer especialidade médica pudesse adqui-
AL e Neto IG. rir esta competência, desde que para tal adqui-
As II e III Jornadas sobre Dor que realizámos ra formação adequada.
reflectem bem esta perspectiva. E apesar de algum mal-estar inicial, sobretudo
As segundas, realizadas em 1992, tinham por alguma sensação de perda por parte de
como título «Dor e qualidade de vida em Onco- quem considere a dor como um feudo próprio,
logia», as terceiras, em 1994, «Dor e cuidados esta competência, dizia, veio constituir uma au-
paliativos». têntica carta de alforria a quem deseje interes-
Em ambas, a grande preocupação era o doente sar-se por esta área do saber médico.
e as suas implicações: a pessoa humana e o seu Quanto ao Programa Nacional para o Controlo
projecto, a qualidade de vida no doente oncológico, da Dor, que se insere no Plano Nacional de
cuidados paliativos na comunidade e, curiosamen- Saúde 2004-2010, julgo que constitui um docu-
te, uma mesa redonda sobre terapêuticas não-con- mento importante pelos seus princípios orienta-
vencionais, em que se abordavam temas como a dores, estratégias de intervenção e formação,
sofrologia, a acupunctura, a homeopatia e méto- mas, como facto relevante, o estabelecimento
dos naturais, que constituiu, talvez a primeira de normas de organização e classificação das
aproximação em discussão pública destas duas Unidades de Dor Crónica.
medicinas, o que não tem sido muito comum. Na realidade, não basta afirmar que se tem
O que se passava, nesta época, em termos uma Unidade de Dor.
organizativos, em relação às Unidades de Dor É fundamental que esta se defina como estru-
que, entretanto, iam aparecendo? tura organizada, capaz de dar resposta adequa-
Sem dúvida que o interesse por esta proble- da a solicitações assistenciais, mas também à
mática era manifesto, sobretudo por parte dos formação e à investigação.
anestesistas que viam nesta área um comple- O desenvolvimento futuro da competência em
mento importante da sua actividade. Medicina da Dor vai tornar imperativo que esta
E assim, em 1980, surge a 2. Unidade de classificação se processe a curto prazo de modo
a
Tratamento da Dor, no Instituto Português de a ser possível estabelecer-se idoneidade das
Oncologia (IPO) do Porto, outras se lhe seguiram Unidades capazes de dar resposta a uma for-
e, em fins da década de 90, existiam várias mação exigente e de qualidade.
Unidades de Dor dispersas pelo país, embora O que podemos esperar no novo século?
com estruturas organizativas muito diferentes. Como afirma Rey R, na sua interessante Histoi-
É nesta altura, precisamente em 97/98, que re de la douleur, a mudança de um século para
Dias JM e eu próprio efectuámos um estudo a outro, não significa, necessariamente, grandes
nível nacional, posteriormente publicado na re- alterações nos conhecimentos e nas práticas.
vista Dolor, intitulado «Portugal e a dor crónica. Realço, no entanto, em termos científicos, os
O estado da arte». estudos sobre o sistema nervoso, muito em par-
Neste estudo em que, pela primeira vez, é fei- ticular a correlação entre as sensações e as
ta uma abordagem da dor crónica em Portugal emoções, com destaque para a linha investiga-
em termos organizativos, conclui-se que apesar cional de Damásio A e os estudos sobre as
do número total de Unidades de Dor nos hospi- várias estruturas nervosas implicadas na com-
tais ser da ordem dos 50%, considerando três preensão do fenómeno doloroso.
modelos organizativos, segundo um critério ba- Neste campo, tornam-se relevantes os estu-
seado numa task force da IASP de 1990, a gran- dos do Instituto de Histologia e Embriologia,
de maioria das Unidades era muito rudimentar, bem como do Instituto de Biologia Molecular e
apenas cinco podiam ser consideradas Clínicas Celular da Faculdade de Medicina do Porto so-
Multidisciplinares de Dor, nenhuma preenchendo bre circuitos genéticos, plasticidade, modelos
os requisitos para um nível mais elevado. de dor e terapêuticas inovadoras, esperando-se
Em 2001 é aprovado, por Despacho Ministerial, que a aplicação destes estudos à prática frutifi-
o Plano Nacional da Luta contra a Dor, precedido quem num autêntico acto de translação.
por um estudo que confirma os nossos dados, Uma linha de investigação promissora incide
que curiosamente (ou não!) ignora totalmente, e nas células não neuronais, em particular a ne-
propõe a criação de Unidades de Dor Crónica em vróglia, cuja função é de sustentar, proteger,
75% dos hospitais portugueses até 2007. isolar e nutrir os neurónios.
Na primeira década deste século realço, fun- No fundo mantém a homoeostasia, formam
damentalmente, dois pontos. mielina e participam na transmissão de sinais no
O primeiro é a criação da competência em sistema nervoso.
Medicina da Dor, e o segundo o Programa Na- Isto abre perspectivas para novos, promissores
DOR cional de Controlo da Dor. e inovadores analgésicos nos mais diversos
campos do processamento, percepção e trans-
A criação da competência em Medicina da
26 Dor, aprovada pela Ordem dos Médicos em missão dos mecanismos de produção de dor.

