Page 26 Volume 17 - N.3 - 2009
P. 26



J.L. Portela: Rever o Passado, Antever o Futuro
E entre nós? lenta, por técnicas invasivas e, em 1990, o pri-
Quando começámos, em 1978, o panorama meiro analgésico opióide por via transdérmica.
não era brilhante. O terceiro foi o extraordinário avanço na investi-
A dor era uma inevitabilidade, a que dificil- gação básica, com incidência sobre as prostaglan-
mente se conseguia fugir, arrastando consigo dinas e substâncias relacionadas, que conferem a
familiares e amigos. Sir John Vane o Prémio Nobel da Medicina, os es-
O arsenal terapêutico era escasso. tudos sobre sensibilização central dos neurónios do
Acreditava-se, ainda, que a interrupção da via corno dorsal, o conceito, introduzido por Wollf C,
ascendente era a solução mais adequada para da preemptive analgesia e os estudos sobre o
a maior parte dos casos e os doentes eram au- efeito modulador de várias substâncias adjuvan-
tenticamente massacrados com todo o tipo de tes como os ansiolíticos e antidepressivos.
bloqueios, a que não era avessa, naturalmente, Como é natural, toda esta avalanche de acon-
a formação em anestesia dos pioneiros neste tecimentos e coisas novas traduziram-se por
tipo de actividade. grande actividade no campo da formação e da
Foi preciso redescobrir a morfina, já franca- divulgação.
mente utilizada e, em muitos casos, criticada, Entre nós, realizaram-se as primeiras Jorna-
nos hospícios ingleses sob a forma do Brompton das sobre Dor em 1980, programadas para Ju-
cocktail. nho mas só realizadas em Outubro devido a uma
Existia no nosso Instituto uma fórmula pareci- greve de aviação, muito comum nessa época,
da, sob o nome de morfina composta, que nin- organizadas pela Sociedade Portuguesa de
guém prescrevia. Anestesiologia que comemorava as suas bodas
Era constituída por morfina, cocaína, gin, mel de prata, com a colaboração do Instituto Portu-
e água cloroformada e, segundo as indicações guês de Oncologia, Centro de Lisboa, e secre-
na sua preparação, esta devia ser recente e não tariadas pela nossa Unidade, na altura chamada
ultrapassar os 30 dias, dados os conservantes, Secção Terapêutica da Dor.
em particular o gin. Analisando o programa constata-se uma ver-
Devo referir, curiosamente, que dos ingredien- tente intervencionista importante, com demons-
tes necessários à preparação desta poção o mais trações práticas de bloqueios, já com circuito
difícil de obter foi precisamente o gin, pois os gins interno de televisão, a presença de participantes
estrangeiros foram considerados muito caros e foi estrangeiros de grande renome como Arias M,
preciso recorrer a um nacional que só se encon- Rubin A e Moricca G, uma conferência sobre
trou disponível nos licores Mala Posta... morfinas endógenas, que começavam a desper-
Foi, de qualquer maneira, uma pedrada no tar grande interesse, a importância do efeito pla-
charco. cebo, mesas redondas sobre a dor no cancro
Passámos a dispor de uma arma poderosa avançado, metodologias e técnicas especiais,
contra os casos rebeldes, em particular os do- onde não podia deixar de figurar a neuroadenó-
entes de cabeça e pescoço, de difícil controle, lise hipofisária do seu autor, Moricca G, um dos
mas mesmo assim sem lhe chamar explicita- grandes entusiastas de técnicas de intervenção,
mente morfina, mas sim «poção Instituto Portu- que afirmava que das causas mais nefastas da
guês de Oncologia de Lisboa (IPOFG)» (nome dor no cancro, uma era a progressão da doença,
que ainda hoje persiste), para não dar ao doen- a outra o uso indiscriminado de morfina…
te e seus familiares a ideia de que estavam a A década de 90 é a década de realizações e
utilizar uma arma de último recurso. divulgação.
A década de 80 foi pródiga em factos e des- É criada a Associação Portuguesa para o Estu-
cobertas no campo da dor. do da Dor (APED), graças ao esforço desenvolvido
Realço, fundamentalmente, três. por Rodrigues N, e o Clube de Anestesia Regional
A primeira foi a publicação, pela OMS, da bro- (CAR), sendo seu fundador de Campos RS.
chura Cancer Pain Relief, em 1986, e traduzida A nível internacional, é fundada a Federação
para português, pela Liga Portuguesa contra o Europeia (EFIC) dos Capítulos da International
Cancro, Núcleo Regional do Centro, em 1987. Association for the Study of Pain (IASP) e a So-
Baseada em guidelines preconizados pelo gru- ciedade Espanhola da Dor (SED).
po de Ventafrida, em Milão, essencialmente para Portugal publica a sua primeira revista Dor, e
o doente oncológico, considerado na altura o pa- Espanha a revista Dolor, primeiras revistas na
radigma do doente crónico, rapidamente se reve- Península Ibérica dedicadas exclusivamente ao
lou um instrumento eficaz no alívio em todas as tratamento da dor.
formas de dor crónica, ao mesmo tempo que des- Em 1995, os Estados Unidos da América
o
mitificava o uso de opióides, através da já clássica (EUA) reconhecem a dor como 5. sinal vital,
escada, que deviam ser utilizados não pela evolu- chamando a atenção para a dor não visível e,
ção da doença mas pela persistência da dor, o como tal, não tratada ou subtratada.
que, na época, era concerteza revolucionário. Em 1995, por Decreto Ministerial, é instituído em
O segundo foi, sem dúvida, a introdução de Portugal o Dia Nacional da Luta contra a Dor. DOR
novos fármacos e novas formas de administração Começa a despontar o movimento dos cuida-
de medicamentos, como as orais de libertação dos paliativos, centrado num conceito holístico 25
   21   22   23   24   25   26   27   28   29   30   31