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Alguns dos nossos doentes deixaram de con- A grande limitação do método será a possibili-
tactar o hospital de forma relativamente preco- dade de complicações neurológicas. A única mor-
ce e, por isso,o seguimento a mais de três bilidade aceitável é a diminuição da sensibilidade
anos é relativo apenas a 21 doentes. A razão tátil nos territórios já previamente menos sensí-
para este fenómeno é evidente – não há neces- veis e, por isso, a avaliação estratégica do doente
sidade de modular e monitorizar o resultado e, e das suas condições clínicas deve ser rigorosa.
quando não há complicações imediatas, não há Nas séries das drezotomias por termocoagulação © Permanyer Portugal 2012
necessidade de reavaliações. há a ocorrência de complicações ocasionais,
Nesta série não há um único caso de recidiva nomeadamente em relação ao feixe corticoespi-
tardia do quadro doloroso. Não houve perda de nal, que estão em relação aparente com a irre-
eficácia com o decorrer do tempo, nem desen- gularidade e a imprevisibilidade das próprias le-
volvimento de quadros de desaferenciação. sões terapêuticas. Nos doentes com défices
Há a referir três casos de complicações neu- anteriores à cirurgia, a técnica pode ser mais li-
rológicas: vre, mas nos doentes com integridade neurológi-
– Dois casos de perturbações táteis nos ter- ca, a preservação dos cordões é preferível a
ritórios marginais, ocorridas em duas situa- alguma limitação nos limites das ablações.
ções de nevralgia herpética, bastante bem Muitos neurocirurgiões, em muitos países,
tolerados. continuam a praticar esta cirurgia com resulta-
– Um caso de perturbação urinária com trans- dos muito interessantes para os doentes. A ci-
formação de bexiga espástica em bexiga rurgia é muito elegante e, em geral, gratificante.
flácida, após drezotomia lombar. Mas há também outros que têm receio em inter-
Não houve qualquer caso de ataxia apendicu- vir sobre doentes já muito castigados pelo trau-
lar ou de paresia dos membros inferiores. ma físico e psíquico. A cirurgia é um trauma,
Este baixo nível de complicações deve-se pro- mesmo quando é rápida, eficaz e libertadora.
vavelmente à utilização exclusiva da técnica Por esta razão a proposta terapêutica deve ser
microcirúrgica. Nunca utilizámos a lesão de ter- sempre individualizada – «bilhete de identidade
mocoagulação ou as lesões por laser, em que da terapêutica». E deve ser harmonizada cuida-
as complicações chegam a 20%, no que respei- dosamente com o doente e o seu ambiente.
ta ao feixe corticoespinal. Enfim constata-se frequentemente uma relati-
va ignorância das suas potencialidades. A sur-
presa terapêutica é partilhada por doentes e
Comentários médicos. Mais que ablativa esta cirurgia é uma
Ao longo dos últimos anos assistiu-se a uma modulação anatomofuncional. A racionalidade
diminuição na utilização de métodos ablativos, do método é óbvia. As suas indicações estão
substituídos por processos menos invasivos e muito bem definidas e os resultados previsíveis
teoricamente com menos efeitos colaterais. Esta e disponíveis. Não fica no princípio nem no fim
tendência está relacionada com o desejo de ali- da linha terapêutica, fica no seu lugar. Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação.
viar os doentes sem induzir sofrimentos ou incó-
modos adicionais. Bibliografia
No atual contexto, as intervenções ablativas Guenot M, Bullier J , Rospars J, Lansky P. Mertens P, Sindou MP. Single
devem ser refinadas e simples. A drezotomia é unit analysis of the spinal dorsal horn in patients with neuropathic
pain. J Clin Neurophysiol. 2003;20:142-50.
uma das boas intervenções com estas carac- Jeanmonod D, Sindou M. Somatosensory function following dorsal root
terísticas e que continua a merecer a escolha entry zone lesions in patients with neurogenic pain or spasticity. J
de muitos terapeutas e de muitos doentes. Neurosurg. 1991;74:916-32.
A análise de múltiplas séries publicadas de- Kandel EL, Ogleznev KIA, Dreval ON. Destruction of posterior root entry
zone as a method for treating chronic pain in traumatic injury to the
monstra excelentes resultados em 2/3 a 3/4 dos brachial plexus. Vopr Neurochirur. 1987;6:20-7.
casos, sendo os resultados mais impressionan- Kanpolat Y, Tuna H, Bozkurt M, Elban AH. Spinal and Nuceus Caudalis
tes nos casos de avulsão do plexo braquial. Dorsal Root Entry Zone operations for chronic pain. Neurosurgery.
2008;12:235-44.
Estes resultados comparam-se favoravelmente Levy WJ, Nutkiewicz A, Ditmore M, Watts C. Laser-induced dorsal root
com outros tratamentos disponíveis, como as entry zone lesions for pain control. Report of three cases. J Neuro-
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O procedimento é muito seletivo. A influência é Neurosurg. 1979;51:59-69.
claramente territorial. A intervenção é bem tolera- Sindou M. Study of the Dorsal Root Entry Zone. Implications for pain sur-
da e na maioria dos casos representa um imedia- gery. M. D. Thesis. Lyon: University of Lyon Press; 1972.
to ganho na qualidade de vida. A maior parte Sindou M, Quoex C, Balaydier C. Fiber organization at the posterior spinal
cord-rootlet junction in man. J Comp Neurol. 1974;153:15-26.
destes doentes são libertados da terapêutica diá- Szentagothai J. Neuronal and synaptic arrangement in the substantia ge-
ria e das visitas regulares de monitorização. latinosa. J Comp Neurol. 1964;122:219-39.
A drezotomia é muitas vezes única nos resul- Thomas DGT, Kitchen ND. Long-term follow-up of dorsal root entry zone
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